As piores lentes do mundo

Tenho em mim as piores lentes do mundo. Tem dias em que é impossível arrancá-las dos meus olhos. Em fases assim, só me resta tentar limpar seus pedaços de vidro que me guiam – nem sempre de forma segura – à frente.

Não sei dizer se comprei ou ganhei esse par malvado, mas está comigo há tempos. Será que desde que eu nasci?

O peculiar é que ninguém percebe que eu tenho essas lentes, elas são invisíveis aos olhos dos outros. E eu prefiro assim. Deixa as minhas individualidades e esquisitices para mim mesma.

Há alguns anos tenho frequentado bons especialistas em visão, mas o grau não tem reduzido, apenas variado. Ora aumenta, ora estabiliza.

Creio que o jeito seja seguir com esse acessório e acreditar que outros também devem usá-lo por aí.

Gira mundo

Aonde você vai, menina? Quem foi que lhe arrancou o brilho do seu sorriso? Onde está a ponte que leva a alegria do seu coração aos seus olhos?

Eu lhe daria um abraço, mas sabemos que isso não vai resolver. Deixemos as coisas assim, o mundo gira devagar, mas sempre gira. Quem sabe na próxima volta você se encontra consigo mesma?

Não existem muitas certezas na vida, mas posso lhe assegurar que nada dura para sempre. Talvez isso lhe aterrorize, talvez lhe console. Não importa. Se segura, o mundo vai girar de novo…

O perigo de querer acertar

Sim, é um caminho perigoso querer acertar o tempo todo. Aparar as arestas nos mínimos detalhes, insistir em polir pedras falsas esperando que tornem-se preciosidades. Vai ser cansativo e não trará resultado algum, exceto pelo sofrimento. O seu. E o dos outros.

Quanto mais orgânico você for, mais autenticidade e lealdade atrairá. Mas isso não será fácil. Muitos lhe repreenderão. Não gostarão de você. Doerá. Causará dúvidas: ser autêntico ou agradar a todos, abdicando de si mesmo?

Você terá duas escolhas: o caminho perigosamente falso de aparências ou o caminho forjado por espinhos da honestidade. No final restará apenas uma angústia: tem certeza que as pessoas lhe conhecem o suficiente para ficarem com você até o fim?

Das esperas da vida

Sem desconfiar, caminhamos todos para a eternidade. Sempre para depois, sempre em outra ocasião, quando não houver chuva, quando estiver se sentindo melhor, quando der vontade. O depois. Depois… depois do que mesmo?

Quem garante o dia de amanhã? O sol depois da chuva? A autoaceitação com sabedoria? Quem foi que disse que você terá um depois do agora?

Que a morte é certa, ninguém duvida. Mas será que o seu lembrete está consciente nos convites prazerosos que recusamos? Na vida que escondemos atrás das cortinas da alma? Nos sorrisos que não damos?

Quanto tempo você tem? Quantas segundas-feiras poderiam ser melhor aproveitadas se soubéssemos que não haveria outro sábado? Quantos abraços daríamos se soubéssemos que seriam os últimos?

Não espere pela eternidade se você não desfruta nem do efêmero.

Procura-se

Como uma chama ao vento, ele foi se apagando. Poucos notaram, mas ele diminuía a cada dia. Quando aparecia, não estava mais acompanhado do belo par. E sozinho ele já não visitava ninguém.

Parecia não haver motivos para se fazer presente. Assim, ele foi se reservando para momentos especiais. O problema é que os momentos especiais se tornaram escassos. E então ele desapareceu de vez.

Dente por dente, brilho por brilho, alma por alma, o sorriso já não estava mais lá.

Quem estava lá?

Das infinitas certezas que existem nessa vida, tem uma que as pessoas insistem em negar: no final das contas só existe você.

Muitos têm a felicidade de receber apoio de pessoas especiais, alguns são afortunados com verdadeiros anjos. Mas, na verdade, todos estão sozinhos.

Não é nenhuma revelação dramática, tampouco constatação pessimista. Apenas a verdade. Você nasceu sozinho, morrerá sozinho. É isso não é ruim. Basta você se tornar uma ótima companhia para si mesmo.

Quem estava lá quando você chorou baixinho até pegar no sono? Quem estava lá quando você tremeu de medo e ainda assim enfrentou seus desafios? Quem estava lá quando você se machucou e sentiu dor?

Você estava lá. Você enxugou suas lágrimas e levantou de novo. Você se olhou no espelho e se convenceu de que havia esperança.

Afinal de contas, você está por você mesmo. Valorize a companhia mais especial do mundo – ao menos do seu.

Vidro

Eu estava lá sentada e de repente alguma coisa dentro de mim quebrou. Naquele papel confrontei as minhas verdades e aquilo me doeu. Não por que era injusto, mas porque fazia total sentido. Como um espelho, apalpei meu passado no reflexo diante de mim. Não pude fugir. Eu estava ali à frente despida de todas as máscaras e personas que eu havia criado para me proteger do mundo e de todos. Aos poucos tudo foi voltando e abrindo caminho forçando lágrimas, pulmões e músculos.

Fiquei ali exposta. Doída. Ainda assim foi bom, estava cansada de fugir. Deixei meu vidro se quebrar em mil pedacinhos e não fiz questão de juntá-los. Tentar colar só me fragilizaria mais.

Tinha terminado. Finalmente poderia parar de correr. Fui ao meu encontro. Respirei fundo e chorei. Demorei no meu abraço, já fazia anos que não me via com tanta transparência.

Chaleira de emoções

Estão em ebulição: sentimentos, pensamentos, pele, ossos e cabelos. Não sabe o que fazer com tanta vida contida dentro de si. É um misto de passado, presente e futuro. Não necessariamente nessa ordem.

Já não diferencia o que experimentou do que desconhece. Apenas sente. E a água ferve e pula dentro dessa chaleira de emoções.

Apagar o fogo? Ainda que se queimasse, não seria possível fazê-lo. Retirar a chaleira daquele momento? A interrupção abrupta poderia ser fatal.

O que fazer então?

Silencia, menina. Não a vida dentro de ti, mas a mania de querer e sentir tudo como se não houvesse mais tempo.

Tudo o que poderia ser visto

Quando alguém olha para ele, não o vê. Não de verdade. Apenas a camada cuidadosamente inventada por si mesmo para se camuflar nesse mundo tão inconstante.

Por dentro, ele é apenas um menino. Que sente. Sofre. Ama.

Por fora, ele é o homem seguro. Que rejeita. Disfarça. Ignora.

Tanta beleza escondida… Quanto esforço empregado para afastar as pessoas! Medo justificado de se magoar de novo. Mal sabe ele que ainda que doa fundo no peito, vale a pena saborear a vida.

Distração

Ela se distrai, ele lhe invade. Os pensamentos, a pulsação, as cores e os cheiros. Tudo passa a girar lenta e dolorosamente. Nada lhe apetece. Apenas as lembranças dos momentos. Vida que flui, muda e também atropela.

O que fazer então?

Negar esse jardim secreto de emoções não é mais possível. As plantas de sensações já estão ultrapassando os muros e se infiltrando nas calçadas da rotina.

Quem vê de fora não percebe, mas há muita vida detrás daquelas paredes. Tanta história, sem ninguém para quem poder contar.