Sobre ter fé

Às vezes dói. Às vezes a palavra dor não é capaz de traduzir o sentimento que atravessa o meu peito cravando as minhas emoções e paralisando o meu dia. Eu fico ali, presa àquele momento. Não sou covarde. Enfrento a minha dor. Tento estudá-la e saber de onde vem. Até que encontro o motivo.

O grande problema é que o crédito vem dos outros. O amor que eu sinto pelos meus entes queridos. O desejo de que eles estejam bem. E eu daria a minha própria saúde e bem estar para que eu garantisse a felicidade deles. Mas isso não é possível. Inútil me sinto.

Tampouco adiantaria não sofrer, pois isso implicaria não amar, não me dedicar ao melhor da vida.

Tenho escolha então?

Rezo. Exalo o bem. Desejo mudança, luz e paz. Não sei bem se isso resolve, mas o que posso eu fazer senão ter fé no tempo?

Porto seguro

Eu estava quieta por fora, mas por dentro eu gritava. Gritava desesperada enquanto sentia o meu peito queimar.

Não podia lidar com aquilo. Eu que sempre fui forte, porque via nela a minha fortaleza, agora estava sem porto. Sem referência.

E agora? Em quem eu me inspiraria? Como teria forças para reverter essa situação? E o pior.. se não houvesse um caminho de volta? Se a confusão fosse a única estrada à frente?

Saberia eu perdoar os deuses e aceitar a vida e suas estranhas surpresas? O que eu iria fazer com todo o gosto amargo e rebelde que corria pelas minhas veias diante dessa situação?

Fechei os olhos e respirei fundo. Vieram as lembranças, a voz protetora conhecida e carregada de zelo. Ouvi minha própria voz chamar aquele nome que significava praticamente todo o meu mundo.

Não me apeguei às lembranças nem olhei o presente. Só tinha a incerteza do futuro como alimento e nele me esbaldei até sentir que estava cheia.

Piso frágil

Quando eu era pequena, costumava achar que se eu desejasse com todo o meu coração tudo ficaria bem.

Aos poucos, conforme fui crescendo, percebi que a vida não era tão simples. Entre altos e baixos, enfrentava os desafios e acolhia os momentos de dor.

O problema é que enxergar a vida com honestidade custa caro. Exige o nosso sossego, a nossa fé e drena a nossa energia.

Tudo bem. Vamos de novo. Mais um dia. É só uma fase.

Foi então que percebi um erro que jamais poderia ser corrigido: as nossas piores dores não podem ser evitadas, porque são um reflexo do amor que temos pelos outros. E eu n-ã-o p-o-s-s-o retirar o sofrimento do peito daqueles que eu amo. E isso me dói mais do que posso descrever em palavras.

Delírio

Poderia assim ser chamada a vida? Delírio? Afinal de contas, qual sua finalidade?

Acredito que o dia em que descobrirmos essa resposta, ao menos para nós mesmos, viveremos de verdade.

E se ao nascermos, recebêssemos nosso objetivo e tempo de percurso neste mundo que parece esmagar aquilo que chamamos de vida, um sopro sobre a terra?

E se não perdêssemos tempo com o sofrimento ao sabermos o que vem depois, todo o amadurecimento e dias mais coloridos?

E se nos garantissem que sim, vale a pena, levantar todos os dias e fazer das folhas em branco as batidas do coração?

E se nos assegurassem que desde que o mundo é mundo, o homem enfrenta a mesma batalha consigo mesmo, a busca de propósito?

Será que assim aproveitaríamos mais os momentos e não nos julgaríamos tanto?

Delírio. Delírio seria se permitir ser feliz. Delírio seria fazer escolhas e conviver em paz com elas. Delírio seria aceitar que não se é nada além de um respirar passageiro. Pois bem, que seja intenso ao menos.

Inspiração

Algo curioso aconteceu com ele. Ele, sempre modesto, sempre silencioso e até mesmo um pouco inseguro, descobriu que era inspiração para alguém.

De início, ficou desconfiado – como gato escaldado que era. Depois vieram outros e mais outros que o notavam – apesar da sua presença discreta – e reconheciam nele talento e um certo dom para abordar as angústias mundanas.

A sensação não era nova, já havia experimentado esse reconhecimento com gosto de chocolate apimentado – doce e um pouco ardido. Ainda assim não havia aprendido a lidar com ela… tão sedutora e carinhosa.

Se permitiu saborear o momento de ser agraciado pelos elogios e ações que brotavam inspirados pelo seu trabalho – afinal, um pouco de auto estima não faria mal pra ninguém.

Deixou-se levar pela cabeça desanuviada e o peito faceiro… Logo logo voltaria a se sentir da mesma forma familiar e excêntrica.

As piores lentes do mundo

Tenho em mim as piores lentes do mundo. Tem dias em que é impossível arrancá-las dos meus olhos. Em fases assim, só me resta tentar limpar seus pedaços de vidro que me guiam – nem sempre de forma segura – à frente.

Não sei dizer se comprei ou ganhei esse par malvado, mas está comigo há tempos. Será que desde que eu nasci?

O peculiar é que ninguém percebe que eu tenho essas lentes, elas são invisíveis aos olhos dos outros. E eu prefiro assim. Deixa as minhas individualidades e esquisitices para mim mesma.

Há alguns anos tenho frequentado bons especialistas em visão, mas o grau não tem reduzido, apenas variado. Ora aumenta, ora estabiliza.

Creio que o jeito seja seguir com esse acessório e acreditar que outros também devem usá-lo por aí.

Gira mundo

Aonde você vai, menina? Quem foi que lhe arrancou o brilho do seu sorriso? Onde está a ponte que leva a alegria do seu coração aos seus olhos?

Eu lhe daria um abraço, mas sabemos que isso não vai resolver. Deixemos as coisas assim, o mundo gira devagar, mas sempre gira. Quem sabe na próxima volta você se encontra consigo mesma?

Não existem muitas certezas na vida, mas posso lhe assegurar que nada dura para sempre. Talvez isso lhe aterrorize, talvez lhe console. Não importa. Se segura, o mundo vai girar de novo…

O perigo de querer acertar

Sim, é um caminho perigoso querer acertar o tempo todo. Aparar as arestas nos mínimos detalhes, insistir em polir pedras falsas esperando que tornem-se preciosidades. Vai ser cansativo e não trará resultado algum, exceto pelo sofrimento. O seu. E o dos outros.

Quanto mais orgânico você for, mais autenticidade e lealdade atrairá. Mas isso não será fácil. Muitos lhe repreenderão. Não gostarão de você. Doerá. Causará dúvidas: ser autêntico ou agradar a todos, abdicando de si mesmo?

Você terá duas escolhas: o caminho perigosamente falso de aparências ou o caminho forjado por espinhos da honestidade. No final restará apenas uma angústia: tem certeza que as pessoas lhe conhecem o suficiente para ficarem com você até o fim?

Das esperas da vida

Sem desconfiar, caminhamos todos para a eternidade. Sempre para depois, sempre em outra ocasião, quando não houver chuva, quando estiver se sentindo melhor, quando der vontade. O depois. Depois… depois do que mesmo?

Quem garante o dia de amanhã? O sol depois da chuva? A autoaceitação com sabedoria? Quem foi que disse que você terá um depois do agora?

Que a morte é certa, ninguém duvida. Mas será que o seu lembrete está consciente nos convites prazerosos que recusamos? Na vida que escondemos atrás das cortinas da alma? Nos sorrisos que não damos?

Quanto tempo você tem? Quantas segundas-feiras poderiam ser melhor aproveitadas se soubéssemos que não haveria outro sábado? Quantos abraços daríamos se soubéssemos que seriam os últimos?

Não espere pela eternidade se você não desfruta nem do efêmero.

Procura-se

Como uma chama ao vento, ele foi se apagando. Poucos notaram, mas ele diminuía a cada dia. Quando aparecia, não estava mais acompanhado do belo par. E sozinho ele já não visitava ninguém.

Parecia não haver motivos para se fazer presente. Assim, ele foi se reservando para momentos especiais. O problema é que os momentos especiais se tornaram escassos. E então ele desapareceu de vez.

Dente por dente, brilho por brilho, alma por alma, o sorriso já não estava mais lá.