O estranho


Mais um dia de aula, mais uma vez excluído. Ele era visto como estranho. Não apropriado para estar em meio aos demais. A cada atividade em grupo, a mesma tortura: quem teria que ficar com ele?

Na hora do recreio, interagia com seu próprio mundo, observando os outros sorrindo e dividindo histórias, risadas e alguns planos para o final de semana. Ele parecia invisível para os demais. Em alguns momentos gostaria de ser para si mesmo também.

Não entendia porque continuava insistindo em levantar da cama e lutar por mais um dia. Mas ia. 
Os anos passaram e a escola terminou, partindo para uma universidade. A escolha do curso era tão peculiar quanto ele e assim algo novo aconteceu: sentiu-se pertencente a um mesmo grupo, estava em casa. O estranho que habita nele finalmente encontrou os estranhos que habitam nos outros. 

Afinal, podem negar e podem tentar esconder, mas todos têm um lado que causaria estranhamento até nos mais originais. 

Esperança 


Desde criança compartilhava consigo mesma um momento mágico, o final do ano. Não importava como havia encarado os meses até ali, nem as incontáveis decepções. O momento de fim de ano acendia uma lâmpada que a iluminava por dentro e o caminho daqueles que passavam por ela.

Era faltar pouco para o ano acabar e a energia ao seu entorno sofrer mutações, os cheiros, cores e até mesmo o tempo. As pessoas ficavam cada mais aceleradas, porém parecia que surgia mais tolerância, sentimentalismo e até alguns perdões.

À medida que apertava os dias para a virada simbólica do tempo, cedia mais espaço para o olho no olho, os abraços e reencontros. Tudo poderia acontecer nesse tempo que antecedia o final e o recomeço. 

Ela sentia tudo isso e também mudava, se abrindo para o novo, para a ressignificação, para respirar fundo e dar mais uma chance. Uma atmosfera de luz lhe cobria e acalmava o coração, tudo era possível nessa época.

O ato de esperar e de se entregar com todo o coração, também conhecido como esperança.

Somos quem podemos ser


Quanto esforço empregado para mudar. Quantos dias deprimido julgando as próprias limitações. E ele sempre fazia as mesmas promessas de que iria melhorar, não iria mais agir do mesmo jeito. Passado alguns meses lá estava ele na mesma situação, seguindo os mesmos padrões de comportamento e pedindo as mesmas desculpas. Não havia parado para pensar que as pessoas são únicas e diferentes. 

Somos quem podemos ser.

Todos têm limitações e carregam consigo uma bagagem imensa que conta uma história particular, marcada por vivências boas e ruins. O jeito de encarar o mundo é exclusivo de cada um, com lentes forjadas pela dor e pelo amor. É preciso respeitar o passado de cada um, pois ele imprime a capacidade de lidar com a vida no presente. 

Já pensou que aquela pessoa pode estar se esforçando ao máximo? Mais compaixão e respeito na próxima vez , somos quem podemos ser.

Paz 


Pode parecer estranho, mas ela não estava acostumada com aquela sensação. Parecia que o mundo havia parado, silenciado por um longo tempo. Dentro do peito quase não se ouvia as batidas que pareciam ter entrado em harmonia. A respiração estava leve e tranquila. O que seria toda essa calmaria silenciosa?

Paz.

Três letras que não são capazes de representar a serenidade que imprimem na alma.

Não era tédio. Não era tristeza. Não era comodismo. Nem luto. Era simplesmente paz – como se houvesse alguma simplicidade nesse sentimento.

Apesar de perseguir essa sensação a vida inteira, não sabia muito bem como lidar com ela. Estaria traindo seus sonhos? Desistindo da mudança? Se consolando com o comum?
Pode parecer idiotice, mas ela havia aprendido que ficar feliz com o simples era mediocridade. A paz lhe parecia preguiça típica dos tolos.

Ficou lá sentada, tentando entender aquele novo mundo que lhe era introduzido. Apreensiva, sem saber para onde ir e quais planos fazer, decidiu que por ora ficaria bem, por ora.

O ser humano tem dessas coisas… Deseja, mas não sabe lidar bem quando é atendido. 

Rótulos 


Até um minuto atrás ela servia. Era considerada apropriada para as funções devidas. De repente a notícia, a mudança que aquelas palavras implicavam. E então ela não mais é necessária, útil. Seu status lhe é tirado, recebendo em troca o rótulo de fracassada. 

Os olhares de julgamento logo aparecem a sua volta, as perguntas giram em torno do que ela teria feito de errado. Porque sempre é preciso achar um culpado, uma justificativa. Os sorrisos são trocados por cochichos inquietos e os abraços por tapinhas nas costas. 
E ela parte. Com o rótulo na testa que diz “não mais suficiente”. Pelo caminho ficam as teorias, as indagações, as fofocas. Mal sabem eles que às vezes o problema não está na pessoa que calça o sapato ou no próprio calçado, às vezes, o erro está em insistir numa combinação que não mais encaixa. 

Ansiedade


Parecia um campo minado, mas era apenas um grupo de pessoas para conhecer. Parecia um teste para ser aceito, mas era apenas uma conversa informal. Parecia uma batalha com plateia exigente, mas era apenas uma saída para um bar. 

Com seu óculos de lentes distorcidas e inapropriadas, nada parecia ser o que era de verdade. A cada convite, uma angústia, um medo de não ser aceito. O que era simples para os outros, lhe custava o sono e a respiração tranquila. 

O quarto era seu abrigo seguro. Os poucos amigos, sua fortaleza. 
Enfrentava os dias apreensivo, esperando sempre o pior. O telefone tocava e o coração já acelerava na expectativa da notícia ruim, da bronca, do julgamento. Era perigoso viver assim, pobre coração. 

Quem via de fora não compreendia. “Que menino mais medroso!”, pensavam. Mal sabiam eles que o menino estava usando óculos errados, que deturpavam toda sua existência.

Medo de ser feliz


Parece que a tempestade nunca vai passar. O mar se agita cada vez mais, o vento chicoteia a face e o horizonte parece se esconder para além do tempo. E ele ali, em meio a tudo isso, indiferente e afetado do mesmo jeito. A melhor forma de enfrentar essa situação é ficando parado, resistindo o quanto for possível.

Até que chega um momento em que a intempérie passa, abruptamente como chegou ela vai embora, levando consigo toda a intensidade gerada. E ele pode enfim respirar.

A paisagem que vai se formando é linda, inacreditável e absolutamente linda! Quase lhe tira o ar. Incrédulo ele se aproxima e observa, não sabe lidar com tamanha perfeição. A beleza assusta às vezes. 

E ele acaba recuando… até ficar imóvel novamente. Verdade que a tempestade era horripilante, mas ele já havia se acostumado com a vista. E com essa paisagem nova e linda, ele saberia lidar?

E ele ficou lá. Parado. Inseguro. Preferiu se agarrar ao terreno inóspito e familiar, ao invés de se lançar em novos caminhos mais belos. A beleza assusta às vezes.

Sobre não fazer nada


Já reparou como é difícil não fazer nada? Dormir não conta, muito menos ficar parado. Fazer nada requer muito esforço… Silenciar a mente, acalmar o coração. Apenas respirar, naturalmente e sem esforço. Fazer nada vai além da serenidade externa. 

Momentos como esse são raros ao longo da vida e geralmente causam aflição naqueles que não estão preparados. Tem gente que não sabe relaxar, se permitir sentir o momento, o ar entrando nos pulmões, o sol alimentando a pele…

Numa tarde de domingo, em que já havia resolvido tudo que precisava, sentou na escada e observou a luz lateral que entrava pela janela. O feixe de sol revelava pequenas partículas no ar,  que pareciam dançar lentamente indiferentes à ela. Não sabia dizer o que era aquilo, mas formava uma cena bonita, sem dúvida.

Após algum tempo, ouviu aquela voz no fundo da mente lhe dizendo para levantar e fazer outras coisas. Entorpecida, continuou imóvel observando aquela dança discreta e a voz foi ficando cada vez mais abafada. 

Não se sabe por quanto tempo permaneceu ali. Poderiam ser horas ou apenas minutos, já não importava. Aquela inércia lhe sintonizou os pensamentos, conectou com o mundo e alinhou a alma. 

Fazer nada requer muito esforço. 

A bússola 


Deu tchau para todo mundo e para ninguém em especial. Tanto fazia, não iria voltar mais. Aos poucos foi em direção à porta, no início com passos lentos, que logo se tornaram ágeis. Até os pés pareciam ter pressa para deixar tudo no passado. 

“Viva a sua vida para além disso.”

A frase do seu amigo ainda ecoava na cabeça, mas a cabeça não era problema. O fato é que o significado do que ele disse lhe martelava o peito. Mais um motivo para ir embora. 

Pois bem, juntou tudo o que tinha, recolheu o orgulho, deixou o apego e seguiu. Não sabia ao certo para onde, só que precisava ir. Às vezes, o coração tem disso: chama, mas faz rodeios sobre a localização. 

Ele foi. E quanto mais longe ia, mais ouvia o chamado dentro do peito, lhe apontando o rumo como uma bússola guiada por seus sonhos.

Projetos inacabados


Não terminar um projeto é ruim? Depende. Insistir em algo só para não se sentir derrotado pode ser a própria derrota. Já teve algo que você quis muito em sua vida, mas depois deixou de fazer sentido para você?

É exatamente isso que ele sentia naquele dia ao retornar para casa. No reflexo das vitrines daquela rua que fazia parte da sua rotina, enxergava com clareza sua imagem. Pela primeira vez, via além do seu habitual terno. Havia conquistado o que qualquer garoto sonharia, com menos idade que um homem é capaz. Ainda assim não sentia que aquilo fazia sentido. Bem, não fazia mais há muito tempo.

Ao contrário dos meses anteriores, não sentiu que era um fracassado ou um ingrato por querer mudar sua vida da noite para o dia. Naquele fim de tarde sentiu necessidade de sair sem rumo, deixar tudo para trás e não terminar nada. Simplesmente queria romper com tudo. 

Como se confirmasse seus desejos, sentiu a brisa morna do sol beijar-lhe o rosto, abençoando seus novos projetos que viriam pela frente. Às vezes, não terminar algo é zelar pelo pacto de felicidade que você fez consigo mesmo.