Enfrente 


Mesmo que ele ainda não saiba, é possível seguir em frente.

Hoje, ele pensa que isso é o fim do mundo. Seu coração pesa de tantos sentimentos que ainda retém. Daqui um tempo, ele perceberá que é possível sim continuar acreditando. Sentirá, com todas as veias que carregam seu sangue, que vale a pena tentar de novo.

Mas hoje, ainda hoje, ele acha que não conseguirá se levantar.
Quando a vida surpreende e o chão se desfaz sob os pés, todas as certezas se vão. A vida é efêmera, temporária, um fio de teia que, embora pareça frágil, suporta o seu propósito.

Vai, segue! E se não for possível que você enfrente tudo isso, simplesmente siga em frente

Protagonista da história 


Ah os livros… Como era bom encontrar refúgio em suas histórias, personagens, possibilidades e sonhos. Mais que tudo isso, ter sempre um amigo por perto.

Quando pequena, tinha o sonho de viver tudo aquilo que lia, participar de diálogos interessantes como aqueles e viver as inúmeras aventuras descritas ali. 

Era muito fácil e natural se perder nas horas ao ler página após página. Não queria mais nada da vida, devorava as palavras e corria os olhos para dar conta de tantas linhas. 

A menina cresceu e acabou lendo menos. Menos coisas que lhe interessavam, menos livros de fantasia, menos imersões naquelas possibilidades de mundos. 

Certo dia estava organizando todos os seus livros. Eram muitos, mas não conseguia doá-los. Sentia vergonha por querer guardar todas aquelas histórias só para si e ainda assim era muito doloroso pensar em abrir mão delas.

Livro após livro foi colocado dentro de uma caixa. E então se deparou com ele. Ah aquele livro lhe atingia mais que todos os outros. Era a história da sua personagem preferida, sua ídola. 

Sentou no chão e folheou aquelas páginas familiares, surradas de tanto serem manuseadas quando era menina. Sentiu o peito apertar e a emoção transbordou pelo rosto até molhar a página. Lá estava ela, sua referência de força, determinação e felicidade.

Ao reencontrar sua protagonista predileta, o questionamento foi inevitável…

Quando foi que eu deixei de ser a protagonista da minha vida?

O tamanho do mundo


O mundo é do tamanho que a gente dá pra ele.

Ele ainda não tinha consciência da grandiosidade da descoberta que havia feito, mas sentia. Enquanto passava as tardes ensolaradas correndo e subindo em árvores, ou nos dias de chuva, pulando de poça em poça. Não existia o tempo. Apenas os machucados, que magicamente eram curados com carinho. No outro dia, as cicatrizes eram contadas com orgulho e as brincadeiras recomeçavam.

Tudo era motivo para se divertir, mas tinha uma coisa em especial que lhe enchia o coração de alegria. Não precisava de dinheiro, nem lojas de brinquedos, nem companhia. Abria um dos armários da cozinha e pegava escondido um prato fundo de duralex. Aquele prato virava um novo tipo de lente para enxergar o mundo. Saía pelo pátio olhando o chão e enxergando as novas formas através daquele brinquedo simples, impensável.
O menino cresceu e o prato não foi mais motivo de brinquedo. Afinal, pratos devem ser usados para colocar comida, certo? E assim cada coisa assumiu o papel de cada coisa. O mundo se tornou mais objetivo, direto, repleto de coisas de adulto. Mas também ficou menor… o mundo contido no quintal daquele menino, no fundo dos pratos e nas poças de chuva se fechou, perdido entre prazos, entregas e excesso de seriedade.

Escolhas

Quem foi que disse que você deve escolher?

A pergunta lhe pegou desprevenida. A vida inteira havia escutado que deveria escolher. Um tipo de música, um estilo, uma sobremesa favorita, uma profissão, um melhor amigo… Sempre uma ou outra. Nunca todas as opções. 

Não soube responder quem havia lhe dito que precisava escolher. Teria sido sua mãe? A professora da escola? Os comerciais na TV? As pessoas com as quais se relacionava?

Também não soube dizer por que deveria escolher. Talvez a seleção fizesse parte da vida do ser humano, afinal a história apontava a seleção como algo natural para a sobrevivência. Talvez fosse mesmo interessante existirem estilos diferentes, opções e mais opções. Talvez desse prazer catalogar pessoas e coisas como especiais. 

De fato não sabia o que responder. Ficou confusa. Escolher poderia ser limitador, mas não fazer escolhas também não o era?

É preciso revidar


Às vezes é preciso revidar.

Era o que ele pensava enquanto se olhava no espelho. As lágrimas ja haviam secado. Sim, lágrimas, pois ainda se permitia chorar. Escondido, é claro, mas chorava.

Já estava cansado de aguentar o mau humor do chefe que andava cheio de dias ruins. Estava cansado de fazer gentilezas, sem receber um agradecimento. Cansado de se esforçar de um jeito humanamente impossível e não receber nada em troca.

Não aguentava mais inventar desculpas para justificar os erros dos outros. Estava infeliz e a culpa também era sua. Sua porque permitia tudo aquilo. Sua porque não revidava. E foi por isso que esse pensamento ecoou na cabeça:
Às vezes é preciso revidar.

Juntou os cacos do resto de amor próprio que lhe restava e tomou coragem. Esse seria o dia em que se colocaria em primeiro lugar. Cuidaria da saúde da alma. Dormiria tranquilo. Foi até a sala do chefe e deu um basta. De maneira elegante e definitiva.

Às vezes a melhor maneira de revidar é desistir. Desistir daquilo que não lhe faz bem. Parar de insistir no que lhe suga a vida, os sorrisos e alegrias.

Solos inférteis

Tem pessoas que chegam e esmagam o mundo dos outros. Elas não se importam se irão ferir os sentimentos de alguém com suas palavras rudes. Não questionam se podem estar erradas. Simplesmente destroem o caminho do outro, como pragas que dizimam plantações inteiras.

Algumas pessoas, as quais se dizem humanas, sentem prazer em amedrontar ou magoar aqueles que as cercam. Chegam como uma nuvem escura em um dia ensolarado.

Mas se enganam se pensam que assim serão felizes. Quando precisarem de ajuda (e um dia todos precisarão) estarão sozinhas em seus solos inférteis.

Cantinho da alma


Naquele dia tinha absoluta certeza que nada terminaria bem.

Se ainda fosse criança teria corrido até o quarto, se trancado e chorado até pegar no sono. Mas o quarto não existia mais. O lugar para chorar quietinha ao final de um dia ruim não estava mais lá. Para ser franca, não encontrava mais cantinho nenhum para desabar.

Voltando para casa, em meio ao engarrafamento e ao silêncio de seu carro, se sentiu privilegiada: havia sim um cantinho só seu.

Estava cercada de carros, pedestres e outros veículos. E nunca se sentiu tão sozinha. Não que isso fosse bom, mas não pareceu ruim na hora. Afinal tinha o seu cantinho para chorar.

E em meio à multidão de invisíveis, se tornou mais uma.

Como é bom ter um lugar para desabar em água…

Qual é o seu cantinho?

Imperfeição


Tinha problema em lidar com a imperfeição. Gostava de tudo certo, a seu modo, em sintonia com o universo que havia criado para si.

Não lidava bem com o caos. As intromissões mundanas lhe assustavam, desviando-a de seu caminho.

Tinha sempre a impressão de que o mundo havia se perdido enquanto fazia seu percurso. Era como se sua bússola interna se desorientasse a cada interrupção indevida.

E assim seguia seus dias, torcendo para que tudo andasse nos eixos. Vida que segue. Dia que amanhece. Estações que vão e vem.
Até que certo dia flertou com o improvável: achou a bagunça atraente. Enquanto acordava para mais um dia, aparentemente normal, não reconheceu o sentimento que lhe cutucava o peito. E, conforme tentava suprimir aquele sentimento, o dito cujo parecia ser mais veemente. Tinha de fato algo de muito belo em ser surpreendida por si mesma.

Se deixou levar pelo acaso. Ouviu seus sentimentos e seguiu o rastro deixado pela desordem. E então o caos ficou tão familiar que se tornou ordem. E com a ordem surgiram as imperfeições….

O homem que não sabia sorrir


Naquele espaço não era permitido rir. Rir era coisa de gente que não se levava a sério, não se respeitava. Sorrir era sinal de fraqueza e segundas intenções. Mais do que tudo isso, homem que muito mostrava os dentes não era de confiança.

Ele cresceu assim, num ambiente cinza que não permitia errar, ser ele mesmo. Foi educado para acreditar que pessoas que lhe davam sorrisos estavam querendo algo em troca. Se alguém ria do que estava dizendo, queria mesmo era debochar de sua cara. E nada o irritava mais do que não o levarem a sério.

Conforme conquistava o que queria, se tornava mais sisudo. Nada tinha graça. O mundo ia se fechando em sua nuvem cinza que lhe acompanhava. Por onde andava espalhava tempo ruim.  Ninguém queria estar perto dele.

Até as coisas pareciam sorrir para ele. Se fatiava uma fruta, lá estava o sorriso a lhe encarar. Se abria uma revista, o modelo estava feliz. Ao assistir um comercial, todos mostravam os dentes. Até os cachorros pareciam debochar de sua cara.

Um dia ele estava esperando para atravessar a rua, quando uma carrinho de bebê parou ao seu lado. Ele achou a criança muito intrigante. Era apenas um bebê e já tinha as sobrancelhas flexionadas como se tivesse o mundo em suas costas. Achou a criatura estranhamente familiar. Dentro do seu peito sentiu algo diferente. Pensou que pudesse ser um ataque cardíaco, mas estava com os exames em dia. Um comichão pareceu pressionar ainda mais até que um riso explodiu em seu rosto. Não sabia lidar com aquilo e a risada tomou conta de todo seu corpo.

Percebendo a cena, a mãe da criança ficou braba e o encarou. O homem não parava de rir. O semáforo abriu e a mulher atravessou a rua com o carrinho de bebê. O caso é que ela não imaginava o bem que seu filho havia causado àquele homem.

(In)certezas da vida


Sempre teve certeza do que queria fazer e planejava para que tudo acontecesse. E acontecia. Nunca teve problema em levantar da cama e correr atrás dos seus sonhos. Batia de porta em porta e não aceitava não como resposta.

Até que chegou um tempo que aquilo que havia buscado a vida inteira e as conquistas realizadas já não faziam o seu coração pulsar com honestidade. Não queria mais aquilo tudo. Sentiu o chão se desfazer a cada passo. Decidiu então que iria ficar parada.

Chegou aos seus ouvidos então a notícia. O tempo passou e o dia de conhecê-la chegou. Em seus braços sentiu o coração bater fora de si, num ritmo novo e encantador. Naquele momento soube exatamente o que queria e, apesar do chão não ter se recomposto a sua frente, cada passo era dado com todo o seu coração.