Para o mundo!


Tem dias que dá vontade de devolver o tíquete de entrada para o mundo. Simples assim. Simples e doloroso. 

Às vezes, a decepção é tão grande que a impressão que se tem é que o trem saiu dos trilhos. 

Talvez o erro seja esperar que as pessoas agiriam da mesma forma correta que você. Talvez as pessoas errem e ponto. Ou, talvez, o mundo esteja mesmo de cabeça para baixo.

O fato é que dói quando há injustiça, mesmo que a culpa não seja sua. E a vontade é de devolver o ingresso e não brincar mais de viver nesse mundo. 

Pontos de partida


Ai de si quando o coração aperta. Era para ser simples, né? A pessoa nasce, vive e morre. Simples assim. Mas naquele dia, ele não estava disposto a se conformar com o simples. Havia acordado com o coração inquieto.

Enquanto atravessava a cidade dentro do ônibus, sentia que o ar estava mais pesado – lhe esmagando o peito. Nos fones de ouvido, colocou sua música preferida para tocar. Suspirou com vontade, mas aquele barulho pareceu lhe trancar ainda mais os pulmões. Aumentou o volume da música e respirou, dessa vez, mais lentamente. 

Já estava quase na hora de desembarcar, mas não se sentia pronto. Parecia que o mundo inteiro estava acelerado e ele indo na contramão. O que será que o estava aborrecendo desse jeito?

Repassou as últimas lembranças, encontros e desejos. Tudo em ordem – aparentemente. Mas já havia se enganado antes, inúmeras vezes. 

Pensou no dia que teria pela frente, na semana, nas pessoas. Se deu conta que faltava pouco para as férias. E também para o fim do ano. Logo iniciaria um novo ano. Sentiu o coração bater duas vezes fora do ritmo. Ali estava. Não podia lidar com aquilo. Mais um ano. Novas expectativas. Vida que seguia apesar de tudo. 

Tocou a campainha. Havia chegado a hora de descer do ônibus. 

Desembarcou e olhou para trás. O ônibus já havia partido. Era a vida que continuava após pequenas interrupções… 

O medo do mundo 


Sabe qual é o medo do mundo?

O medo do mundo é não ser amado. As pessoas têm medo de serem rejeitadas. 

E se não ouvirem seus sentimentos?  Não curtirem suas postagens? Não comentarem suas fotos? Já pensou esquecerem de chamá-las para aquela festa? As pessoas t-e-m- m-e-d-o. Medo de ficarem de fora. De não serem incluídas.

Já imaginou que chato ser esquecido? E se ninguém lembrasse do seu aniversário?

Você não está sozinho nessa ânsia. Todo mundo sente o mesmo. No fundo todos querem se sentir amados.

A melhor companhia do mundo 


As pessoas desejam que histórias especiais aconteçam com elas. E por isso elas esperam. Esperam um final feliz, um reencontro inesperado, uma declaração especial, uma situação inusitada. Esperam.

E com esse sentimento ela fez planos. Seria o verão dos seus sonhos. Viveria tudo intensamente, contaria histórias exclusivas para as amigas, riria ao lembrar de tudo, seria mágico.

Com essa expectativa saiu para curtir a noite. No caminho encontrou alguns príncipes, todos sem graça. Também encontrou alguns sapos, com os quais nada queria. Tirou proveito e seguiu sua caminhada. Não sabia bem o que queria, mas não era aquilo, com certeza. 

Dia após dia, noite após noite, a mesma curtição. Música depois de música. Dançando. Rindo. E na ânsia de encontrar alguém especial se deu conta: já estava na melhor companhia possível. 

Os sentimentos não ditos 


Queria um pouco de sossego. Achava justo ter um momento só seu, já que todos pareciam ser prioridade, exceto ela. Já havia se dedicado aos outros durante toda sua vida, portanto prometeu para si mesma que, naquele dia, teria um momento só seu.

Dispensou as visitas, inventou uma doença e foi para o seu quarto. Apesar de dormir sozinha naquele espaço, sempre estava cercada daqueles que amava. Mas não ia pensar nisso agora, afinal que mal tinha ficar um pouco longe de todos?

Se deitou na cama. Sua cama. Fechou os olhos. Abriu. Reparou que o teto estava sujo. Fez menção de se levantar. Não! Se forçou a ficar deitada. Parecia que o mundo havia feito uma pausa. Silêncio. 

Lembrou que não havia estendido a roupa molhada. O relógio da cozinha estava sem pilha. Será que havia desligado o fogão? Quieta!

Respirou fundo. Silêncio de novo. Pareceu sossegar até que… que som era esse? Abriu os olhos e espiou a sua volta. Lá estavam os responsáveis por interromper o seu momento. Em cima do bidê um porta retratos com uma foto envelhecida. Na imagem, rostos familiares, esquecidos pelo tempo, que pareciam querer lhe falar.

Não sentiu medo. Não disse nada. Fazia tempo que não os ouvia e eles estavam chateados. Baixinho, eles perguntaram:

Fingir que nunca existimos silencia os teus sentimentos?

Mulher 


Desde que ela havia partido ele se sentia perdido. Parecia uma bússola que não apontava para lugar algum. 

Todos os dias ele se atrapalhava para acordar no horário. Ao sair de casa, esquecia alguma coisa. A porta? Esquecia de chavear. E ao chegar em casa, parecia que nada tinha para fazer.

Não é que ela mandasse nele, de forma alguma. Tampouco acreditava que era impossível viver alguns dias sem sua presença. O fato é que sempre que ela precisava viajar, ele se sentia assim… Como uma balão que voa sem rumo, conforme o vento. 

Então ela voltava e a vida parecia entrar nos eixos. Até acontecer o de sempre: ela se tornava, mais uma vez, imprevisível. Tinha dias em que chegava radiante e tudo o que queria era estar perto dele. Noutros momentos, ele tinha a nítida impressão de que havia feito algo errado, porque ela simplesmente soltava sua fúria sobre ele.

E assim ele enfrentava seus dias, acompanhando e refletindo aquela montanha russa de emoções. Fosse como fosse, prefiria a adrenalina de sua companhia ao vazio de sua ausência. A mulher é o termômetro da vida!

Enfrente 


Mesmo que ele ainda não saiba, é possível seguir em frente.

Hoje, ele pensa que isso é o fim do mundo. Seu coração pesa de tantos sentimentos que ainda retém. Daqui um tempo, ele perceberá que é possível sim continuar acreditando. Sentirá, com todas as veias que carregam seu sangue, que vale a pena tentar de novo.

Mas hoje, ainda hoje, ele acha que não conseguirá se levantar.
Quando a vida surpreende e o chão se desfaz sob os pés, todas as certezas se vão. A vida é efêmera, temporária, um fio de teia que, embora pareça frágil, suporta o seu propósito.

Vai, segue! E se não for possível que você enfrente tudo isso, simplesmente siga em frente

Protagonista da história 


Ah os livros… Como era bom encontrar refúgio em suas histórias, personagens, possibilidades e sonhos. Mais que tudo isso, ter sempre um amigo por perto.

Quando pequena, tinha o sonho de viver tudo aquilo que lia, participar de diálogos interessantes como aqueles e viver as inúmeras aventuras descritas ali. 

Era muito fácil e natural se perder nas horas ao ler página após página. Não queria mais nada da vida, devorava as palavras e corria os olhos para dar conta de tantas linhas. 

A menina cresceu e acabou lendo menos. Menos coisas que lhe interessavam, menos livros de fantasia, menos imersões naquelas possibilidades de mundos. 

Certo dia estava organizando todos os seus livros. Eram muitos, mas não conseguia doá-los. Sentia vergonha por querer guardar todas aquelas histórias só para si e ainda assim era muito doloroso pensar em abrir mão delas.

Livro após livro foi colocado dentro de uma caixa. E então se deparou com ele. Ah aquele livro lhe atingia mais que todos os outros. Era a história da sua personagem preferida, sua ídola. 

Sentou no chão e folheou aquelas páginas familiares, surradas de tanto serem manuseadas quando era menina. Sentiu o peito apertar e a emoção transbordou pelo rosto até molhar a página. Lá estava ela, sua referência de força, determinação e felicidade.

Ao reencontrar sua protagonista predileta, o questionamento foi inevitável…

Quando foi que eu deixei de ser a protagonista da minha vida?

O tamanho do mundo


O mundo é do tamanho que a gente dá pra ele.

Ele ainda não tinha consciência da grandiosidade da descoberta que havia feito, mas sentia. Enquanto passava as tardes ensolaradas correndo e subindo em árvores, ou nos dias de chuva, pulando de poça em poça. Não existia o tempo. Apenas os machucados, que magicamente eram curados com carinho. No outro dia, as cicatrizes eram contadas com orgulho e as brincadeiras recomeçavam.

Tudo era motivo para se divertir, mas tinha uma coisa em especial que lhe enchia o coração de alegria. Não precisava de dinheiro, nem lojas de brinquedos, nem companhia. Abria um dos armários da cozinha e pegava escondido um prato fundo de duralex. Aquele prato virava um novo tipo de lente para enxergar o mundo. Saía pelo pátio olhando o chão e enxergando as novas formas através daquele brinquedo simples, impensável.
O menino cresceu e o prato não foi mais motivo de brinquedo. Afinal, pratos devem ser usados para colocar comida, certo? E assim cada coisa assumiu o papel de cada coisa. O mundo se tornou mais objetivo, direto, repleto de coisas de adulto. Mas também ficou menor… o mundo contido no quintal daquele menino, no fundo dos pratos e nas poças de chuva se fechou, perdido entre prazos, entregas e excesso de seriedade.

Escolhas

Quem foi que disse que você deve escolher?

A pergunta lhe pegou desprevenida. A vida inteira havia escutado que deveria escolher. Um tipo de música, um estilo, uma sobremesa favorita, uma profissão, um melhor amigo… Sempre uma ou outra. Nunca todas as opções. 

Não soube responder quem havia lhe dito que precisava escolher. Teria sido sua mãe? A professora da escola? Os comerciais na TV? As pessoas com as quais se relacionava?

Também não soube dizer por que deveria escolher. Talvez a seleção fizesse parte da vida do ser humano, afinal a história apontava a seleção como algo natural para a sobrevivência. Talvez fosse mesmo interessante existirem estilos diferentes, opções e mais opções. Talvez desse prazer catalogar pessoas e coisas como especiais. 

De fato não sabia o que responder. Ficou confusa. Escolher poderia ser limitador, mas não fazer escolhas também não o era?