É preciso revidar


Às vezes é preciso revidar.

Era o que ele pensava enquanto se olhava no espelho. As lágrimas ja haviam secado. Sim, lágrimas, pois ainda se permitia chorar. Escondido, é claro, mas chorava.

Já estava cansado de aguentar o mau humor do chefe que andava cheio de dias ruins. Estava cansado de fazer gentilezas, sem receber um agradecimento. Cansado de se esforçar de um jeito humanamente impossível e não receber nada em troca.

Não aguentava mais inventar desculpas para justificar os erros dos outros. Estava infeliz e a culpa também era sua. Sua porque permitia tudo aquilo. Sua porque não revidava. E foi por isso que esse pensamento ecoou na cabeça:
Às vezes é preciso revidar.

Juntou os cacos do resto de amor próprio que lhe restava e tomou coragem. Esse seria o dia em que se colocaria em primeiro lugar. Cuidaria da saúde da alma. Dormiria tranquilo. Foi até a sala do chefe e deu um basta. De maneira elegante e definitiva.

Às vezes a melhor maneira de revidar é desistir. Desistir daquilo que não lhe faz bem. Parar de insistir no que lhe suga a vida, os sorrisos e alegrias.

Solos inférteis

Tem pessoas que chegam e esmagam o mundo dos outros. Elas não se importam se irão ferir os sentimentos de alguém com suas palavras rudes. Não questionam se podem estar erradas. Simplesmente destroem o caminho do outro, como pragas que dizimam plantações inteiras.

Algumas pessoas, as quais se dizem humanas, sentem prazer em amedrontar ou magoar aqueles que as cercam. Chegam como uma nuvem escura em um dia ensolarado.

Mas se enganam se pensam que assim serão felizes. Quando precisarem de ajuda (e um dia todos precisarão) estarão sozinhas em seus solos inférteis.

Cantinho da alma


Naquele dia tinha absoluta certeza que nada terminaria bem.

Se ainda fosse criança teria corrido até o quarto, se trancado e chorado até pegar no sono. Mas o quarto não existia mais. O lugar para chorar quietinha ao final de um dia ruim não estava mais lá. Para ser franca, não encontrava mais cantinho nenhum para desabar.

Voltando para casa, em meio ao engarrafamento e ao silêncio de seu carro, se sentiu privilegiada: havia sim um cantinho só seu.

Estava cercada de carros, pedestres e outros veículos. E nunca se sentiu tão sozinha. Não que isso fosse bom, mas não pareceu ruim na hora. Afinal tinha o seu cantinho para chorar.

E em meio à multidão de invisíveis, se tornou mais uma.

Como é bom ter um lugar para desabar em água…

Qual é o seu cantinho?

Imperfeição


Tinha problema em lidar com a imperfeição. Gostava de tudo certo, a seu modo, em sintonia com o universo que havia criado para si.

Não lidava bem com o caos. As intromissões mundanas lhe assustavam, desviando-a de seu caminho.

Tinha sempre a impressão de que o mundo havia se perdido enquanto fazia seu percurso. Era como se sua bússola interna se desorientasse a cada interrupção indevida.

E assim seguia seus dias, torcendo para que tudo andasse nos eixos. Vida que segue. Dia que amanhece. Estações que vão e vem.
Até que certo dia flertou com o improvável: achou a bagunça atraente. Enquanto acordava para mais um dia, aparentemente normal, não reconheceu o sentimento que lhe cutucava o peito. E, conforme tentava suprimir aquele sentimento, o dito cujo parecia ser mais veemente. Tinha de fato algo de muito belo em ser surpreendida por si mesma.

Se deixou levar pelo acaso. Ouviu seus sentimentos e seguiu o rastro deixado pela desordem. E então o caos ficou tão familiar que se tornou ordem. E com a ordem surgiram as imperfeições….

O homem que não sabia sorrir


Naquele espaço não era permitido rir. Rir era coisa de gente que não se levava a sério, não se respeitava. Sorrir era sinal de fraqueza e segundas intenções. Mais do que tudo isso, homem que muito mostrava os dentes não era de confiança.

Ele cresceu assim, num ambiente cinza que não permitia errar, ser ele mesmo. Foi educado para acreditar que pessoas que lhe davam sorrisos estavam querendo algo em troca. Se alguém ria do que estava dizendo, queria mesmo era debochar de sua cara. E nada o irritava mais do que não o levarem a sério.

Conforme conquistava o que queria, se tornava mais sisudo. Nada tinha graça. O mundo ia se fechando em sua nuvem cinza que lhe acompanhava. Por onde andava espalhava tempo ruim.  Ninguém queria estar perto dele.

Até as coisas pareciam sorrir para ele. Se fatiava uma fruta, lá estava o sorriso a lhe encarar. Se abria uma revista, o modelo estava feliz. Ao assistir um comercial, todos mostravam os dentes. Até os cachorros pareciam debochar de sua cara.

Um dia ele estava esperando para atravessar a rua, quando uma carrinho de bebê parou ao seu lado. Ele achou a criança muito intrigante. Era apenas um bebê e já tinha as sobrancelhas flexionadas como se tivesse o mundo em suas costas. Achou a criatura estranhamente familiar. Dentro do seu peito sentiu algo diferente. Pensou que pudesse ser um ataque cardíaco, mas estava com os exames em dia. Um comichão pareceu pressionar ainda mais até que um riso explodiu em seu rosto. Não sabia lidar com aquilo e a risada tomou conta de todo seu corpo.

Percebendo a cena, a mãe da criança ficou braba e o encarou. O homem não parava de rir. O semáforo abriu e a mulher atravessou a rua com o carrinho de bebê. O caso é que ela não imaginava o bem que seu filho havia causado àquele homem.

(In)certezas da vida


Sempre teve certeza do que queria fazer e planejava para que tudo acontecesse. E acontecia. Nunca teve problema em levantar da cama e correr atrás dos seus sonhos. Batia de porta em porta e não aceitava não como resposta.

Até que chegou um tempo que aquilo que havia buscado a vida inteira e as conquistas realizadas já não faziam o seu coração pulsar com honestidade. Não queria mais aquilo tudo. Sentiu o chão se desfazer a cada passo. Decidiu então que iria ficar parada.

Chegou aos seus ouvidos então a notícia. O tempo passou e o dia de conhecê-la chegou. Em seus braços sentiu o coração bater fora de si, num ritmo novo e encantador. Naquele momento soube exatamente o que queria e, apesar do chão não ter se recomposto a sua frente, cada passo era dado com todo o seu coração.

Saudade


Na maior parte do tempo ela fica adormecida. Mas em alguns domingos nublados ela vai chegando sem pedir licença e fica, assim por tempo indeterminado.

A bagagem que traz consigo é imensa. Contém perfumes, cores, sons e diferentes texturas. Ao abrir a mala, ecoa uma risada boa, um colo familiar, um cheirinho de alguém querido, um sensação boa.

Dentro de sua bagagem também há espaço para o arrependimento, geralmente acompanhado de um relógio, uma lágrima e algumas palavras mal ditas. Em seus bolsinhos menores aparecem suspiros, frascos de silêncio e arranhões.
E assim, essa visita inesperada e espaçosa arranca todos da distração típica do cotidiano. O vazio da saudade ocupa um espaço imenso.

Transbordar


Tinha um mundo inteiro dentro dela e se orgulhava disso. Ia acumulando lembranças, encontros e amores. Tudo bem registrado no cofre do coração.

Mas também havia mágoas. Incontáveis. Coisas pequenas que passavam por ali e outras que acabavam fazendo morada.

Tudo cabia dentro dela. E ela caminhava com orgulho. Era muita bagagem que trazia consigo. Aquilo tudo era sua história, o que sabia sobre o mundo.

No meio do caminho cruzava com outros cofres, alguns fáceis de acessar, outros com códigos complexos. Algumas senhas requeriam segredos mirabolantes, outras apenas o toque.

E assim ela ia. Intacta. Com seu cofre cheio guardado no coração. E então surgiam ladrões e até alguns pedintes. Lidava com aquilo e seguia a vida.

Só não podia lidar com marginais. Estes forçavam a abertura do cofre sem nenhuma delicadeza. Faziam o que bem entendiam para ter o que queriam. Machucavam gratuitamente.

Foi então que se deu conta: o cofre havia ficado com fissuras. Lá estava ela quando de repente suas preciosas emoções e lembranças vieram à tona. Por entre as aberturas do cofre, tudo foi escorrendo e transbordando. Chorou então pela primeira vez.

Canto da Sereia


O discurso era pura sedução. A voz, sempre carregada do mesmo tom aveludado. As palavras, mescla de doçuras e vaidades.

A fala certa. Para a pessoa necessitada. Aquilo que se quer ouvir.

E assim ele era convencido. Convencido a ficar mais um pouco. Convencido que valia a pena. Convencido que tinha valor. Convencido que fazia a diferença. E assim ele ia ficando.

Os anos passaram. O sorriso foi ficando amarelado. O coração já não batia com cuidado, parecia um beija-flor nervoso.
E então ele tomava a decisão: iria embora. Tentar outra vida. Buscar o néctar certo para o passarinho que abrigava dentro do peito.

Mas a sereia voltava. E com ela todo o seu encanto. As promessas. E ele acabava ficando… O ninho já não o fazia feliz, mas era o único ninho que conhecia.

(Im)paciência


Ninguém mais tem paciência.

Se alguém demora para responder, é atropelado por adivinhações.

Se o carro demora para arrancar, buzinam.

Se as expectativas no relacionamento não são correspondidas rápida e intensamente, não era para dar certo.

Se explicam uma vez e não há entendimento, pessoa burra.

Se atrasar alguns minutos, falta de compromisso.

Para ser contratado, anos de experiência.

Para ser feliz, milagre.

Ninguém mais tem paciência. Todos devoram o tempo e tem sede de imediatismo.

Sem saber que poderia aproveitar o momento, ela foi lá e cresceu o mais rápido que pôde.