Arco-íris


Ela não tem noção da perfeição dela.

Foi a primeira coisa que ele pensou quando ela veio caminhando em sua direção.

E ele estava certo. Ela realmente não tinha.

Enquanto ele disfarçava o olhar, encontrando momentos justificáveis para observar o seu jeito tímido, ela imaginava se teria alguma chance com ele.

Ela se aproximou e sentou ao seu lado. Afinal, ela era modesta, não covarde.

Ele notou com cada parte de seu ser que ela estava ali, mas fingiu fazer pouco caso.

Em silêncio, ela pegou a mecha de cabelo que sempre irritava o seu rosto e colocou atrás da orelha. O rosto pareceu queimar sendo observado por ele, então ela soltou a mecha novamente. Pronto. Assim ela estava protegida.

No chão uma varinha de madeira sendo cúmplice desse momento. Ela pegou a varinha e começou a desenhar na areia.

Ela sentou aqui… eu podia falar alguma coisa.

Ele olhou o desenho que ela ia fazendo.

Que tipo de arte é essa?

Ela sorriu e prendeu a mecha de cabelo novamente.

Gênio dos diálogos (pensou de maneira amarga)

Mas ela respondeu com um sorriso mais largo.

Era para ser um arco-íris. Eles são tão lindos. Não acha?

Ele não estava interessado no arco colorido dos céus. O sorriso dela já formava o mais incrível de todos eles.

Acho.

Quando o sapato aperta


Mais uma vez ele estava lá em meio ao grande grupo. Muito barulho, agito, reencontros e risadas forçadas.

O que eu estou fazendo aqui?

Ao seu redor ruídos ensurdecedores de pessoas que fazem parte de algo (elas se enquadram nos requisitos sociais).

Como as pessoas conseguem fazer isso?

Nas mãos ele não segurava nada. Tirou do bolso o celular e fingiu estar ocupado.

Ouviu passos. À frente parou alguém familiar.

Alívio.

Os dois se cumprimentaram e conversaram sobre bobagens. O tempo. O evento que estava prestes a começar. As notícias horríveis sobre política.

Superficialidades.

Ele não pode deixar de notar que não era o único que estava desconfortável no ambiente.

É a oportunidade de sairmos daqui.

Nervosos, os dois trocam olhares. Olham seus relógios. Comentam sobre mais alguma coisa sem sentido.

Ele também não se encaixa nesse grupo.

Ao fundo alguém avisa para se prepararem que o evento começará.

Sem jeito os dois se despedem. Ele ajeita o semblante e caminha discretamente para o seu lugar.

A cadeira é confortável. O espaço é agradável. Mas ele suspira, o sapato aperta.

De repente você se torna aquilo que sempre estranhou


Ela atravessa a rua. Bem vestida. De salto.

De salto. (E um esboço de sorriso abre espaço em seu rosto).

A caminhada é firme. Na cabeça, repassa as obrigações do dia. No peito, o coração parece um passarinho assustado que quer sair voando. Afinal, para isso os pássaros são feitos, né?

Chega perto de um prédio que se tornou familiar. Rostos conhecidos e até amigos sorriem enquanto ela passa.

É aqui o meu lugar. Gente do bem. Oportunidades.

E ela se convence. E sorri mesmo quando o rosto queima. Porque é forte. Porque aprendeu que a vida não é feita de caprichos.

Mais um passo.

Foco. Atenção. Engajamento.

Mas a janela distrai… O pensamento voa e o coração sonha mais alto.

Você tem contas para pagar. Ingrata.

E de repente ela está lá. Sentada. Bem vestida. Um emprego bom. Pessoas do bem. Cheiro de gente bem sucedida.

Mas o rosto queima. O passarinho quer sair.

De repente você se torna aquilo que sempre estranhou.

Prefácio


Eu quero voltar a ser essa pessoa que os outros veem em mim.

Com esse pensamento incessante, ela pulou da cama. No mesmo horário. Foi até o banheiro e escovou os dentes. Lavou o rosto enquanto pensava que sim, o dia seria bom.

Ninguém ensina essas coisas. Ninguém mostra como superar isso. Eu queria poder ver dentro dos outros.

Vestiu a roupa. Maquiou por fora. Maquiou por dentro. Ajeitou o cabelo e fixou o olhar naquela pessoa que nascia a sua frente.

Eu queria poder ver dentro dos outros.