Grão de areia


Era a primeira vez que voaria de avião. Sozinha. Estava com medo e expectativa ao mesmo tempo. Finalmente iria sentir a sensação de flutuar e passar por entre as nuvens. Será que elas se desmanchariam? Será que o sol seria mais quente lá de cima? Pássaros voariam perto da sua janela?

Embarcou e se aconchegou em seu lugar. Escolheu a janela, claro. Espiou em volta e observou se todos aguardavam com ansiedade o momento do avião decolar. Mas não. Todos já pareciam estar habituados àquele milagre. Como poderia tanto peso flutuar com graça no céu? Como era possível engrenagens, parafusos e outros materiais construídos por seres humanos resistirem ao vento e outras intempéries? 

Finalmente o avião se colocou no ar. Inicialmente ela nem percebeu que a aeronave já não tocava o chão, logo sentiu o corpo ficar mais leve… Gostou daquela sensação e sorriu embasbacada. 

Lá de cima observou casas e prédios ficarem cada vez menores e mais distantes. Quantas pessoas morariam lá embaixo? Quantos sonhos habitariam aquelas ruas? Imaginou centenas de milhares de pessoas tocando suas vidas, batalhando todos os dias. Achou que fosse se sentir pequena, comum em meio a todos, mas foi exatamente o oposto: sentiu-se privilegiada por estar ali naquele momento. 

Os infelizes 


Quando alguém está infeliz, seu maior objetivo, ainda que insconsciente, é destruir toda a felicidade que encontra no caminho. Não importa se o causador da sua infelicidade é ele mesmo ou se não faz nada para mudar esse cenário. Simplesmente não consegue aceitar que mais alguém possa ser feliz se ele não o for também.

Por esse motivo alguns infelizes pelo caminho decidiram que destruíriam os sonhos daquela menina. Por que ela? Porque ela era feliz – não que fosse tarefa fácil –  mas ela não desistia, apesar de tudo, e seguia estampando um sorriso sincero no rosto ainda que lhe doesse por dentro. Mas eles não se importavam se ela lutava por sua felicidade, nem se ela os tratava bem gratuitamente. Tudo o que eles viam era uma pessoa feliz a ser combatida.

Como era de se esperar, eles não a incluíram em seu grupo amargo que fingia exalar alegria. Tampouco respeitaram seu jeito diferente e amigo. Os infelizes fizeram questão de tentar destruir o mundo da menina, respirando dia e noite sentimentos nebulosos de raiva e admiração doentia. Afinal, toda inveja é um amor não correspondido. 

Se doeu na menina toda aquela agressão gratuita? Doeu, lógico. Mas ela se fortaleceu como pôde e seguiu adiante, sem perder o brilho de quem acredita na vida. E, apesar de continuar encontrando infelizes pelo caminho, também conheceu outras pessoas que escolhiam a felicidade, assim como ela. 

Sonhos 


E se você sentir medo? E se o próximo passo for desconhecido?

As perguntas ainda ecoavam na cabeça, quando ele finalmente chegou em casa. O dia havia sido longo, cansativo e nada parecia ajudar a aliviar a sensação de impotência. Para piorar a situação, toda vez que compartilhava seus planos com alguém, o desencorajavam fazendo as mesmas perguntas angustiantes. Ele entendia, claro, não podiam aceitar que ele iria correr atrás de seus sonhos, que tentaria alcançar o que todos queriam.

Mesmo assim, por mais que estivesse insatisfeito com os resultados da sua vida atual, sentia medo de largar tudo e tentar algo novo. E se estivessem certos? E se ele desse com a cara na parede?

Aquela foi a noite mais longa da sua vida. Precisava decidir o que fazer e a dúvida só aumentava. Finalmente quando pegou no sono, teve um pesadelo. Não, não sonhou com fantasmas ou a morte de entes queridos. No sonho, ele encontrava uma criança que chorava incessantemente. Porém, ao consolar aquele menino, ele percebia que era ele mesmo quando criança. Após o choque inicial, ele quis saber o porque do menino chorar assim. 

Por que você chora desse jeito?

Porque você me abandonou aqui. 

Nesse instante ele acordou e soube o que devia fazer.

Confiança 


O medo é proporcional à vivência de cada um. Para aquele menino nada parecia mais assustador que andar de bicicleta sem rodinhas. Todos os seus amigos já haviam superado esse desafio, exceto ele.  Para um adulto poderia parecer um medo bobo, para aquele garoto era todo o seu mundo. 

Já havia tentado de tudo para conseguir se equilibrar na bicicleta, mas em algum momento ela sempre parecia derruba-lo. Os dias iam passando e sua angústia só aumentava, ele queria muito pedalar como os outros meninos, sem o auxílio daquelas rodinhas que agora pareciam simbolizar todo seu fracasso.

Numa dessas tardes que nada prometem, mas acabam marcando nossos corações, ele estava na rua de sua casa brincando sozinho. Na esquina apareceu seu pai, adivinhem só, com ela em suas mãos. A aflição do menino só aumentou quando percebeu que a bendita seguia sem rodinhas. Triunfante, a bicicleta parecia carregar um sorriso debochado. Já seu pai trazia uma expressão serenamente determinada ao caminhar em sua direção.

E com essa determinação, que mais parecia uma teimosia apaixonada, seu pai lhe entregou a bicicleta. Inseguro, o menino pegou nos braços daquela que vinha sendo seu maior pesadelo. 

Pai, eu não consigo. Eu vou cair de novo. 

Mas o pai não era de ceder. 

Consegue sim. Se cair, levanta e vai de novo. Paciência. 

O menino montou na bicicleta, rezou para todos os santos e começou a pedalar. O pai segurava o banco da bicicleta, enquanto corria ao seu lado. Logo, o garoto se inflou de confiança e passou a pedalar com mais coragem. A bicicleta e o menino passaram a ser um só, numa dança incessante. O menino espiou suas costas, ao fundo seu pai sorria com um orgulho discreto. 

Reencontros 


É fato que o mundo anda cada vez mais confuso e as pessoas mais distantes, por isso não esperava grandes coisas daquele reencontro. A vida já havia entrado no piloto automático do trabalho, contas a pagar, visitas de domingo e algumas horas de sono. O tempo foi passando e as desculpas aumentando até que pararam de se ver.

A convivência que era intensa, inexplicável e que parecia para sempre, aos poucos foi ficando rasa até se tornar escassa. O que parecia impossível aconteceu: as duas não mais saíram juntas, nem riram até doer a barriga, nem choraram até aliviarem as dores do mundo. As promessas de uma amizade eterna ficaram para trás. No presente restaram outras pessoas, outras juras.

Alguns anos depois o destino as colocou frente a frente de novo. Encurraladas naquela situação, conversaram. Inicialmente foi pura diplomacia, poucos minutos depois ficaram confortáveis. Aquelas duas amigas que pareciam ter ficado no passado retornaram e estavam ali, de corpo e alma naquele reencontro que ninguém ousaria explicar.
Não é sobre o tempo. Não é sobre hobbies em comum e nem passeios requintados. Algumas almas simplesmente se encaixam e permanecem próximas, apesar de tudo.

Ciclos 


O que move um coração? Por que escolher um caminho e não outro? O que faz esse músculo bombear sangue com maior intensidade? E o que o comprime como se o espaço utilizado não fosse suficiente?

Naquele dia ele tinha certeza que seu coração iria explodir. Se fosse possível, sairia fumaça de seu peito, se ouviria um sibilo mais alto que a terra e por fim o peito craquelaria e cairia aos pedaços no chão. Dramático assim. Doloroso a esse ponto.

Era o último ano da sua vida naquele colégio. Aquele boletim era um tíquete de embarque sem volta. Nunca mais estaria com aqueles amigos. Nunca mais encararia o olhar severo e acolhedor do professor. Não seria mais o menino prodígio. Não saberiam mais seu nome na fila do cantina. Seria apenas mais um, cursando alguma faculdade, convivendo com concorrentes em sua profissão. Não seria permitido errar e ninguém se importaria se ele quisesse matar aula.

Uma a uma, as constatações iam caindo sob seus pés e o coração parecia um animal selvagem lutando contra as encilhas do peito. Estava entrando em pânico. Não sabia o que fazer. O que poderia esperar dali pra frente?
Enquanto cruzava aquele velho corredor repleto de sons de vidas pulsantes, se deparou com uma cena. Era a professora que havia lhe ensinado a ler há mais de dez anos atrás. Curvada para frente, ela encarava um estudante com os olhos carregados de ternura e lhe explicava algo com a paciência que só os mestres têm. A cena em volta era caos, mas ali, naquele pequeno mundo carregado de confiança, a professora acalmava o menino.

Ele reconhecia aquela sensação de mundo quentinho e acolhido. Era reconfortante aquela cena tão distante e tão familiar. O peito foi acalmando, o coração ajeitou o ritmo e ele seguiu seu caminho, pronto para o novo ciclo que iniciava.

Palavras 


Ela era uma menina. A única em meio a tantos primos, todos meninos, repletos de força, aprovação e confiança. O mundo iria querer dividi-los entre emoção e razão, submissão e dominância, sensibilidade e poder. Mas ela ainda não sabia disso e, por isso, encarava seus dias de igual para iguais.

Juntos, eles subiam em árvores, travavam guerras mundiais, compunham canções, construíam castelos de areia e aprontavam. Num único dia era possível viverem inúmeras aventuras, lado a lado, sem diferenciações. Sem maldade. 

Num certo dia, apareceu um adulto. Um desses que já esqueceram sua melhor versão, que não enxergam mais a beleza da vida, apenas distinções esmaecidas do que já viveram um dia. Pois bem, esse adulto encarou essa menina no fundo dos seus olhos. – A menina ainda sorria, com dentes, boca e olhos. Estava feliz. – E lhe fez a seguinte afirmação:

Você não deveria brincar desse jeito. Você é uma menina.

Ela não entendeu o que essa afirmação queria dizer e, ainda assim, pareceu lhe esmagar o peito. 

Poderiam ser apenas palavras, mas elas lhe dividiram o mundo.

Melhor amigo 


Nem sempre o melhor amigo de alguém é uma pessoa. Tinha aprendido isso da pior forma. Era filho único e os pais viviam para trabalhar. Sua companhia era o mundo, bem, o mundo ao qual tinha acesso. 

No seu aniversário de oito anos foi levado para um lugar diferente. Não sabia o que esperar daquele local para o qual seus pais o levavam com tanta expectativa e mistério.

Chegando lá topou de cara com ele, aquele serzinho saltitante e peludo que já parecia amá-lo e conhecê-lo como ninguém. Foi amor à primeira vista. A partir daquele dia os dois se tornaram inseparáveis. 

Para ele, era possível contar todas as suas angústias. O dia podia ser ruim, mas ao chegar em casa, ele era acolhido por seu fiel amigo. Quando chorava, ele lambia suas lágrimas e parecia se compadecer com seus sentimentos. O mundo já não parecia mais tão grande e sua casa parecia lotada, tamanha a energia do seu companheiro de quatro patas.

Ele não falava, mas ouvia melhor do que muita gente. Sempre por perto, sempre pronto para agir. Assim, os dois cresceram juntos, se entendendo, cada um a seu modo. 

Até que chegou um dia em que o seu amigo precisou partir. Leal como sempre, antes pediu permissão ao companheiro humano para deixá-lo ir. Este acolheu seu pedido. Verdade que seu peito ardia por dizer adeus ao seu melhor amigo, aquele que o ajudou a crescer, mas sabia que não poderia ser egoísta.

Agradeceu por todo seu amor e dedicação e se despediu do seu companheiro mais fiel. Se despediu também daquela sua parte que ficava para trás, toda sua infância e seu pequeno grande mundo de alegrias. 

Amor-próprio 


Como insetos que buscam a luz incessantemente, ela busca a aceitação dos outros. 

Todos os dias, de todas as formas, ela se alimenta do reconhecimento que vem de fora. Precisa insaciavelmente de elogios, audiência e falsas representações de amor.

O problema é que depender dos outros para reconhecer o próprio valor é algo muito perigoso e cansativo. E tem dias que dói dentro dela. E ela chora. E acusa o mundo de estar errado por não valorizar toda a sua grandeza.

Mas ela está errada em depositar nas mãos dos outros o seu amor e autoafirmação. Ninguém aguenta carregar tanto peso. Uma mochila tão lotada acaba rasgando e assim se vai todo o seu esforço. 

Só que a vida não lhe ensinou a ser de outro jeito. E ela segue fazendo aquilo que conhece. Insiste em voar em direção ao brilho da luz, mesmo que esta seja artificial. Mesmo que isso lhe cause dor. Mesmo que o mundo teime em não lhe ver.