Chaleira de emoções

Estão em ebulição: sentimentos, pensamentos, pele, ossos e cabelos. Não sabe o que fazer com tanta vida contida dentro de si. É um misto de passado, presente e futuro. Não necessariamente nessa ordem.

Já não diferencia o que experimentou do que desconhece. Apenas sente. E a água ferve e pula dentro dessa chaleira de emoções.

Apagar o fogo? Ainda que se queimasse, não seria possível fazê-lo. Retirar a chaleira daquele momento? A interrupção abrupta poderia ser fatal.

O que fazer então?

Silencia, menina. Não a vida dentro de ti, mas a mania de querer e sentir tudo como se não houvesse mais tempo.

Tudo o que poderia ser visto

Quando alguém olha para ele, não o vê. Não de verdade. Apenas a camada cuidadosamente inventada por si mesmo para se camuflar nesse mundo tão inconstante.

Por dentro, ele é apenas um menino. Que sente. Sofre. Ama.

Por fora, ele é o homem seguro. Que rejeita. Disfarça. Ignora.

Tanta beleza escondida… Quanto esforço empregado para afastar as pessoas! Medo justificado de se magoar de novo. Mal sabe ele que ainda que doa fundo no peito, vale a pena saborear a vida.

Distração

Ela se distrai, ele lhe invade. Os pensamentos, a pulsação, as cores e os cheiros. Tudo passa a girar lenta e dolorosamente. Nada lhe apetece. Apenas as lembranças dos momentos. Vida que flui, muda e também atropela.

O que fazer então?

Negar esse jardim secreto de emoções não é mais possível. As plantas de sensações já estão ultrapassando os muros e se infiltrando nas calçadas da rotina.

Quem vê de fora não percebe, mas há muita vida detrás daquelas paredes. Tanta história, sem ninguém para quem poder contar.

Coragem é estar vivo

De repente você se depara com o resultado do que a vida te fez e o que você fez dela. E de repente não há mais tempo. Nem espaço. Nem nada que justifique a espera que traduz seus medos. Só resta o caminho à frente, composto por um piso frágil e incerto.

Certeza só tem uma: a cada respiração tudo irá mudar e se reorganizar conforme as inconstâncias que compõem a vida. Repleta que só ela, intensa que só vivendo. E só vive quem tem coragem, quem é capaz de expor suas feridas ao sol e às intempéries do mundo.

E aí se abriga a escolha de dar mais um passo, de se recompor e lutar mais um dia. O combustível é composto do que se espera do dia de amanhã. A cada nascer do sol uma nova fagulha. A cada expansão dos pulmões uma esperança. Há que se viver mais um dia. Há que se ter coragem.

O dia mais longo

Ah que dia mais comprido e intenso…

Desde que nascemos acumulamos memórias, sentimentos e escolhas. Pelo caminho enchemos nossa bagagem e moldamos nosso coração. Consegue entender por que um dia é tão longo? De quantos anos é feito o seu dia de hoje?

Ao levantar da cama amanhã, escolha. Escolha qual lembrança ou pensamento irá vestir. Não se trata de olhar para trás com pesar, mas de se munir do que há de mais belo e único na construção da sua história. Permita-se viver o novo, mas valorize o mosaico de milagres que compõem você.

Corra

Corra até sentir que o coração saltará pela boca. Corra até achar que o passado ficará para trás. Corra livremente, independente do que dizem sobre você. Corra até faltar o ar. Corra até achar que é possível.

Ninguém disse que você tem que caminhar. Ninguém disse que você tem que se justificar. Corra. Simplesmente deixe para lá todas as pessoas, circunstâncias e possibilidades que já não fazem parte dessa carcaça que compõe você agora.

Corra. E se conseguir, viva a sua vida. Renove-se a cada esquina e liberte-se de todos os porquês, afinal ninguém consegue ser rápido carregando tanto peso.

O encontro


Eis que proponho um encontro: você agora com você criança! Será o momento de prestar contas e rever se você está sendo um bom administrador dos sonhos planejados há tanto tempo atrás.

Vocês se sentarão de frente um para o outro, se olharão fundo nos olhos e serão honestos. Talvez você criança pergunte como vão as coisas e o que você agora tem feito para cumprir os anseios do jovem coração. Talvez você agora fique quieto e olhe para atrás com vergonha ou tristeza. Vocês irão chorar juntos.

Passado esse momento analisarão os fatos e perceberão que fizeram tudo o que estava ao alcance, que nem sempre a vida atende aos planos, ao certo, ao esquematizado. Se darão conta que cada dia é único e imprevisível. Tudo bem, pode ser complicado mesmo.

E o que farão com o que as circunstâncias fizeram de vocês? Novos planos?

(Silêncio)

Os olhos de vocês se reencontram e veêm fundo. Pela primeira vez nenhum dos dois têm a resposta.

Finita solução 

Ah… que atração irresistível ele tem por ela. Sedutora, ela sopra em seu ouvido que tudo ficará bem, que é a solução finita para sua dor. E ele fica tentado a escuta-la, a seguir com ela, desbravando um caminho novo e incerto.

Mas… e se tudo o que ele ouviu sobre ela for verdade? E se ele tiver que pagar um preço alto e eterno pela sua oferta?

Dividido entre dois infernos. Preso a dois sofrimentos, um conhecido, outro nem um pouco. 

E ele adia a decisão. Só por hoje. Luta mais um dia. Não que seja covarde, apenas não aguenta mais a possibilidade de seguir sofrendo. 

Efervescência 


Estou de saco cheio, sou a última gota que faltava, me enchi e transbordei. Sou intensidade, me imponho limites nem sempre saudáveis. Me dôo, me dói. Quando vou ao encontro do outro, esbarro em mim. Não adianta fugir, vou e volto para a minha essência, que não muda, que causa alvoroço e estranheza (e até alguns admiradores). Sou autêntica e isso também me custa. Assim, abro mão de muitos e muitas coisas, mas não se preocupem: o que não me falta não me merece. 

O rejeitado

Aquele rio era o local preferido dos pescadores da cidade. Em dias de sol, era comum ver as famílias chegando e lotando as margens do rio. 

Os caniços eram arremessados com vontade e os peixes emergiam da água após uma espera atenta e ansiosa. Parecia um ritual estranho dos tempos modernos: pessoas esperando por uma resposta da natureza, a seu tempo e desejo.

Conforme passava o dia e os peixes eram pescados, algo estranho acontecia. Quando um bagre era o azarado da vez, era sempre devolvido. Todos os pescadores e a mesma exclusão com o bagre, ninguém queria comê-lo.

Parecia uma condição triste que ninguém o aceitasse e prestigiasse como aos outros, porém isso o mantinha vivo. Já parou para pensar que não ser o preferido pode te livrar de problemas?