O perigo de querer acertar

Sim, é um caminho perigoso querer acertar o tempo todo. Aparar as arestas nos mínimos detalhes, insistir em polir pedras falsas esperando que tornem-se preciosidades. Vai ser cansativo e não trará resultado algum, exceto pelo sofrimento. O seu. E o dos outros.

Quanto mais orgânico você for, mais autenticidade e lealdade atrairá. Mas isso não será fácil. Muitos lhe repreenderão. Não gostarão de você. Doerá. Causará dúvidas: ser autêntico ou agradar a todos, abdicando de si mesmo?

Você terá duas escolhas: o caminho perigosamente falso de aparências ou o caminho forjado por espinhos da honestidade. No final restará apenas uma angústia: tem certeza que as pessoas lhe conhecem o suficiente para ficarem com você até o fim?

Das esperas da vida

Sem desconfiar, caminhamos todos para a eternidade. Sempre para depois, sempre em outra ocasião, quando não houver chuva, quando estiver se sentindo melhor, quando der vontade. O depois. Depois… depois do que mesmo?

Quem garante o dia de amanhã? O sol depois da chuva? A autoaceitação com sabedoria? Quem foi que disse que você terá um depois do agora?

Que a morte é certa, ninguém duvida. Mas será que o seu lembrete está consciente nos convites prazerosos que recusamos? Na vida que escondemos atrás das cortinas da alma? Nos sorrisos que não damos?

Quanto tempo você tem? Quantas segundas-feiras poderiam ser melhor aproveitadas se soubéssemos que não haveria outro sábado? Quantos abraços daríamos se soubéssemos que seriam os últimos?

Não espere pela eternidade se você não desfruta nem do efêmero.

Procura-se

Como uma chama ao vento, ele foi se apagando. Poucos notaram, mas ele diminuía a cada dia. Quando aparecia, não estava mais acompanhado do belo par. E sozinho ele já não visitava ninguém.

Parecia não haver motivos para se fazer presente. Assim, ele foi se reservando para momentos especiais. O problema é que os momentos especiais se tornaram escassos. E então ele desapareceu de vez.

Dente por dente, brilho por brilho, alma por alma, o sorriso já não estava mais lá.

Quem estava lá?

Das infinitas certezas que existem nessa vida, tem uma que as pessoas insistem em negar: no final das contas só existe você.

Muitos têm a felicidade de receber apoio de pessoas especiais, alguns são afortunados com verdadeiros anjos. Mas, na verdade, todos estão sozinhos.

Não é nenhuma revelação dramática, tampouco constatação pessimista. Apenas a verdade. Você nasceu sozinho, morrerá sozinho. É isso não é ruim. Basta você se tornar uma ótima companhia para si mesmo.

Quem estava lá quando você chorou baixinho até pegar no sono? Quem estava lá quando você tremeu de medo e ainda assim enfrentou seus desafios? Quem estava lá quando você se machucou e sentiu dor?

Você estava lá. Você enxugou suas lágrimas e levantou de novo. Você se olhou no espelho e se convenceu de que havia esperança.

Afinal de contas, você está por você mesmo. Valorize a companhia mais especial do mundo – ao menos do seu.

Vidro

Eu estava lá sentada e de repente alguma coisa dentro de mim quebrou. Naquele papel confrontei as minhas verdades e aquilo me doeu. Não por que era injusto, mas porque fazia total sentido. Como um espelho, apalpei meu passado no reflexo diante de mim. Não pude fugir. Eu estava ali à frente despida de todas as máscaras e personas que eu havia criado para me proteger do mundo e de todos. Aos poucos tudo foi voltando e abrindo caminho forçando lágrimas, pulmões e músculos.

Fiquei ali exposta. Doída. Ainda assim foi bom, estava cansada de fugir. Deixei meu vidro se quebrar em mil pedacinhos e não fiz questão de juntá-los. Tentar colar só me fragilizaria mais.

Tinha terminado. Finalmente poderia parar de correr. Fui ao meu encontro. Respirei fundo e chorei. Demorei no meu abraço, já fazia anos que não me via com tanta transparência.