Sobre não fazer nada


Já reparou como é difícil não fazer nada? Dormir não conta, muito menos ficar parado. Fazer nada requer muito esforço… Silenciar a mente, acalmar o coração. Apenas respirar, naturalmente e sem esforço. Fazer nada vai além da serenidade externa. 

Momentos como esse são raros ao longo da vida e geralmente causam aflição naqueles que não estão preparados. Tem gente que não sabe relaxar, se permitir sentir o momento, o ar entrando nos pulmões, o sol alimentando a pele…

Numa tarde de domingo, em que já havia resolvido tudo que precisava, sentou na escada e observou a luz lateral que entrava pela janela. O feixe de sol revelava pequenas partículas no ar,  que pareciam dançar lentamente indiferentes à ela. Não sabia dizer o que era aquilo, mas formava uma cena bonita, sem dúvida.

Após algum tempo, ouviu aquela voz no fundo da mente lhe dizendo para levantar e fazer outras coisas. Entorpecida, continuou imóvel observando aquela dança discreta e a voz foi ficando cada vez mais abafada. 

Não se sabe por quanto tempo permaneceu ali. Poderiam ser horas ou apenas minutos, já não importava. Aquela inércia lhe sintonizou os pensamentos, conectou com o mundo e alinhou a alma. 

Fazer nada requer muito esforço. 

A bússola 


Deu tchau para todo mundo e para ninguém em especial. Tanto fazia, não iria voltar mais. Aos poucos foi em direção à porta, no início com passos lentos, que logo se tornaram ágeis. Até os pés pareciam ter pressa para deixar tudo no passado. 

“Viva a sua vida para além disso.”

A frase do seu amigo ainda ecoava na cabeça, mas a cabeça não era problema. O fato é que o significado do que ele disse lhe martelava o peito. Mais um motivo para ir embora. 

Pois bem, juntou tudo o que tinha, recolheu o orgulho, deixou o apego e seguiu. Não sabia ao certo para onde, só que precisava ir. Às vezes, o coração tem disso: chama, mas faz rodeios sobre a localização. 

Ele foi. E quanto mais longe ia, mais ouvia o chamado dentro do peito, lhe apontando o rumo como uma bússola guiada por seus sonhos.

Projetos inacabados


Não terminar um projeto é ruim? Depende. Insistir em algo só para não se sentir derrotado pode ser a própria derrota. Já teve algo que você quis muito em sua vida, mas depois deixou de fazer sentido para você?

É exatamente isso que ele sentia naquele dia ao retornar para casa. No reflexo das vitrines daquela rua que fazia parte da sua rotina, enxergava com clareza sua imagem. Pela primeira vez, via além do seu habitual terno. Havia conquistado o que qualquer garoto sonharia, com menos idade que um homem é capaz. Ainda assim não sentia que aquilo fazia sentido. Bem, não fazia mais há muito tempo.

Ao contrário dos meses anteriores, não sentiu que era um fracassado ou um ingrato por querer mudar sua vida da noite para o dia. Naquele fim de tarde sentiu necessidade de sair sem rumo, deixar tudo para trás e não terminar nada. Simplesmente queria romper com tudo. 

Como se confirmasse seus desejos, sentiu a brisa morna do sol beijar-lhe o rosto, abençoando seus novos projetos que viriam pela frente. Às vezes, não terminar algo é zelar pelo pacto de felicidade que você fez consigo mesmo.

Se você desistir


Já pensou se você desistir? Quantas pessoas se decepcionarão? Para quem você deixará de ser referência? Parece ser um fardo pesado ser exemplo. E é mesmo. Mas também é necessário, às vezes, você precisa ser inspiração para os outros. Por quê? Porque de certa forma você foi escolhido, escolhido por si próprio. Você optou por seguir adiante, dar mais um passo, mesmo quando ninguém mais acreditava.

É por isso que ser referência não é fácil, porque também não é fácil dar um passo a mais, continuar lutando, inclusive quando tudo parece estar contra você. E apesar da corrente vir com toda força, você não deixa de nadar. Nada com determinação e com tanta vontade, que é possível até mesmo carregar algumas pessoas junto.

O caminho pode não ser fácil, nadar contra a maré pode ser difícil, mas não desista. Olhe para trás e perceba: quantas pessoas estão se inspirando em você?

Levanta!


Cada vez menos há espaço para o erro. Essas quatro letras geram um frio na barriga capaz de assustar as mais corajosas criaturas. O som dessa palavra parece se arrastar entre os dentes e escorrer ralo abaixo toda convicção. Ninguém quer errar, porque quem erra nem sempre tem uma segunda chance.

Infelizmente, não existe um único ser humano que não cometa erros com frequência. O importante é inovar no repertório, desbravando novos terrenos com coragem. Muitas pedras aparecerão no caminho, muita poeira incomodará os olhos, joelhos serão ralados. Mas há opções, lógico. É possível persistir no erro, ou aprender com ele. Tentar outros caminhos, ou seguir estagnado.

Muitas vezes a vida pode ser cíclica e a culpa é das pessoas – enquanto não for aprendida a lição, a história será sempre a mesma. Se for pra cair, caia. Machuque os cotovelos, chora, chora profundamente. E então levanta. Levanta e segue.

O valor da dor

Ao longo da vida todos sofrem decepções e perdas. Porém, algumas dores parecem fazer marcas mais profundas na alma. Certas feridas demoram mais para curar, precisam de maior atenção e carinho. Ninguém ensina a arte da medicina para sarar o coração, não existe faculdade para isso. As pessoas nascem e vão crescendo, aprendendo a lidar com as dores que surgem pelo caminho e seus machucados resultantes.

Numa certa noite de verão, que parecia ser apenas mais uma, aquela menina sofreu sua maior dor até então. Não dependia dela evitar aquilo, estava nas mãos de outras pessoas. E nem sempre os outros se importam se irão magoar alguém, simplesmente o fazem. O fato é que aquele momento abriu uma ferida muito grande em seu peito e levou muito tempo para formar uma cicatriz enorme.

Muitos anos se passaram, a menina buscou ajuda, mas já era tarde: a cicatriz havia aprofundado suas raízes moldando todo o seu ser. Às vezes, ela se pega imaginando como seria sua vida se não tivesse saído naquela noite. Que outros traumas teria em seu coração? Quais dores diferentes enfrentaria sua existência?

Mas não adiantava imaginar outros passsdos – já estava feito. Pelo menos ter cicatrizes significava que estava viva, afinal o corpo reagia aos estímulos que o mundo produzia. 

Conexão 


A vida manda sinais o tempo todo. Não, nada que seja sobrenatural ou esotérico. Tem a ver com a ciência, o universo está conectado. Cada ser vivo, cada partícula. A vida não pode ser definida por calendários ou horas, a natureza flui, indiferente à razão e a expectativas.

Naquele dia, quando acordou e ouviu aquela música cheia de lembranças, não se desesperou por o ano estar chegando ao fim. Tampouco sentiu nostalgia ou medo por reencontrar aquela foto de quando era apenas uma criança que ignorava a lógica e preocupações mundanas.

De alguma forma inexplicável, orgânica e natural, se conectou com o mundo e sentiu que não precisava sentir aflição com o tempo que estava passando. Ele podia passar, ela estava vivendo. 

Conviver 


Convivência: dois mundos diferentes que tentam alinhar suas rotações. Nem sempre é fácil adaptar-se ao outro, suas manias, suas crenças de mundo, afinal o objetivo de cada um é sempre satisfazer as próprias vontades.

O ser humano é assim mesmo, voltado para o próprio umbigo. Não leve isso tão à sério, é natural da sobrevivência se colocar em primeiro lugar. E não é algo necessariamente ruim, mas machuca, de fato.

Quando diferentes universos habitam debaixo do mesmo teto há que afinar os instrumentos até sair uma única melodia suave. Mas isso leva tempo, dedicação e muita paciência. 

É por isso que conviver requer mais de um, requer escolher com-quem-quer-viver. E antes de mais nada, é preciso conhecer a si mesmo, seus limites, fraquezas e defeitos.

Viver


No silêncio daquele domingo à tarde escutou um barulho alto, ensurdecedor. Infelizmente, sabia identificar que som era aquele e o que era pior, já havia se acostumado com ele. 

Era o som de um tiro. Ali perto dele se encerrava mais uma vida. Uma bala, um artefato desenvolvido por um ser humano para ferir outro ser vivo, saía de algum revólver e atravessava alguém, encerrando sua história. Para sempre. 

Ele estava em casa descansando, como sempre fazia aos domingos e, a alguns metros de distância, todo o universo de alguém findava em alguma ruela qualquer. Era uma jornada que ficava para trás, certamente uma família que ficaria órfã. Sairia aquele fato nos jornais? Talvez em formato de gráfico? O ser humano seria noticiado como mais um? Lhe dariam o nome ou seria julgado como uma morte merecida?

Naquele domingo não podia continuar indiferente. Ao menos naquele dia, não enfrentaria o dia como mais um número do calendário. Precisava viver, precisava sentir que estava fazendo algo além de respirar e esperar suas férias. 

A morte, apesar de dolorosa e cruel, pode significar o despertar para quem fica. 

Abandonar


Inúmeras vezes a tentação é de abandonar. Abandonar a si mesmo, abandonar os sonhos, abandonar e fugir. Correr. Se esconder debaixo da coberta naquela cama familiar. 

Quando ele era menino e não queria enfrentar uma prova na escola, fingia estar doente e abandonava, ainda que temporariamente, aquele compromisso. Porém, o tempo passou e o menino virou adulto. Não podia contar mais com a cumplicidade de seus pais e abandonar os compromissos do dia a dia. Tinha contas a pagar.

Com doença de verdade ou de mentira, ia trabalhar. Gostando ou não de certas pessoas, agia diplomaticamente e mantinha a educação, embora sem muita honestidade. Mas se dava ao luxo de abandonar alguns compromissos, ficando em casa, quando a vontade de sair se esvaía num sábado à noite. 

E nessa dança de cumprir com as obrigações e não abandonar as tarefas que a vida lhe impunha, não sabia dizer se apenas havia se tornardo adulto ou era o menino o verdadeiro abandonado no caminho.