Engrenagem


Às vezes doía dentro de si.

A sensação era de uma engrenagem que havia parado. Colocava um pouco de óleo para lubrificar as peças, mas não resolvia. A engrenagem era delicada e parecia ter vontade própria.

Tinha dias que simplesmente nada ajudava a funcionar melhor. Já havia consultado os melhores especialistas, lido os mais complexos manuais e gastado horas tentando entender aquele quebra-cabeça. Mas a engrenagem parecia teimar a tudo e a todos.

Em outros momentos tudo parecia correr bem. As peças giravam num movimento contínuo e harmonioso. O ritmo era perfeito. Sensação de plenitude.

E então os problemas voltavam. Uma das peças já não encaixava. O óleo parecia não fazer efeito. E o ritmo… Bem, incomodava os ouvidos.

Assim aceitou que era melhor suportar os momentos de dor das peças mal enjambradas.

Certas engrenagens não foram feitas para imprimir movimentos repetidos.

Poder(ia)


Nada mata mais sonhos que o poderia.

Poderia mudar de carreira. Poderia fazer um curso em outra língua. Poderia cuidar mais de si. Poderia amar alguém de verdade.

O mundo está cheio de pessoas que poderiam se realizar. Poderiam ser felizes. Asas e mais asas que foram podadas, ou nem ao menos desenvolvidas.

Muitos passatempos. Poucas almas satisfeitas.

Já imaginou que poder-ia ter cada indivíduo se escutasse seu coração?

Asas não foram feitas para ficar flexionadas. Que  poderia lhe impede de alçar voo?

Bicho-papão


Tem gente que sente prazer em amedrontar os outros.

Quando criança, ele tinha um primo que adorava contar histórias de terror. Toda vez que se reuniam, era a mesma situação. O primo insistia que era bobagem ficar com medo. Mas o fato é que ele ficava uma semana inteira dormindo com a luz acesa.

O que era diversão para um, era a verdadeira tortura para outro. E assim ele cresceu aturando esse primo e suas histórias apavorantes.

Mas como era esperado, ele se tornou adulto. Não tinha mais medo de ter algum bicho-papão debaixo da cama. Os filmes de terror podiam ser assistidos enquanto comia pipoca.

Os primos cresceram e o caso é que combinaram de se reencontrar. Um churrasco para colocar o papo em dia.

Lá foi ele rever o primo. Já imaginava as risadas que dariam lembrando das noites de histórias de terror.

Conversa vai, conversa vem, o primo passou a comentar as notícias do jornal.

Sabia que mataram dois essa noite? Lá no teu bairro.

O sujeito começou pelos índices de violência e foi adentrando dados  cada vez mais alarmantes. Era a crise financeira. Os preços do mercado. Os assaltos. As doenças… Até a qualidade da carne e da bebida entraram em pauta.

Os dois se despediram e prometeram marcar outra oportunidade.

O primo foi dormir contente pelo reencontro. Ele não dormiu a semana inteira.

Anjo


Se eu pudesse tirar toda sua dor com a mão…

Enquanto deixava essa frase tomar corpo se dava conta de que isso é amor de verdade. O coração batendo fora de si própria. O desejo de sentir sua dor em seu lugar. Braba com o mundo que não a compreende e cuida como deveria.

Amor puro e desinteressado. O desejo de cuidado e proteção aflorando cada vez mais. Amor de anjo que cuida.

Como se fosse possível blinda-lá de tudo e todos.

E aquilo doía. Doía perceber que não podia barrar o mundo. Que as pessoas não enxergavam seu valor.

Preferiria mil vez sofrer do que permitir a ela qualquer dor.

Mas não bastava desejar. Também não bastava dar todos os conselhos e fazer todas as orações.

Parecia que o mundo não estava pronto para aquele anjo que conhecia tão bem.

Assim, foi aprendendo a confiar na vida. No tempo. Nas estrelas. Logo chegaria o momento que alguém cuidaria dela como merecia. E assim encontraria sossego e zelaria de longe, como anjo que nunca dorme.

Felicidade

Você é feliz?

A pergunta foi simples, mas pareceu uma bofetada lhe arrancando da rotina.

Eu tenho saúde. Emprego. Tenho um lar. Pessoas que me amam. Óbvio que eu sou feliz.

Apesar dos argumentos mentais, ele optou por rir. Rir era mais fácil. Evitava respostas e parecia natural que alguém que fosse feliz sorrisse.

Mas o sorriso pareceu congelar no meio do caminho e perder força.

Não voltou a falar com ninguém naquele dia. Estava fechado para balanço interno.

Todas as necessidades em sua vida preenchidas e ainda sim sentia que não era feliz.

Que bobagem.

Mas não era. Aquela pergunta havia remexido no baú que há tempos ele se esforçava para manter fechado.

Mentalmente ele sentou sobre o baú. Quem sabe assim ficaria fechado? Decidiu que pensar nessas coisas era assunto para gente ingrata. E foi à rua. Sair e jantar fora pareceu uma boa opção.

De sobremesa escolheu gelatina. Ele sempre gostou de gelatina. Simples. Acessível. Saborosa.

Levou outra colherada à boca e lembrou da primeira vez que comeu gelatina. Sua tia insistindo para que ele comesse, mas aquela gosma colorida parecia tão interessante que ele só queria brincar. E assim se travava a mesma batalha todos as vezes: ela querendo que ele comesse e ele achando que era brinquedo.

Sorriu. A lembrança era boa, de fato. Mas o alívio foi maior.

Eu sou feliz. 

Propósito


Já fazia tempo que observava os dois vasos de plantas. Um estava sempre repleto de flores e brotos. Não importava o clima ou a estação, quando caíam as pétalas, novas flores surgiam.

O outro estava farto de folhas. Verdes. Vivas. Bonitas. Mas nunca flores.

As duas plantas eram do mesmo tipo. Ganhavam a mesma água. A mesma atenção.

A verdade é que a dona não entendia por que apenas uma de suas plantas se desenvolvia com plenitude. Ela já estava começando a suspeitar que a terra da planta sem flores estava mal cuidada. Revirou o solo, irrigou e observou. Mas nada.

Mesmo sem flores ela não desistiu daquele vaso, afinal cada planta é única. Mas a planta sem flores ficou lá. Discreta. Sem todo o brilho e atenção sobre ela.
Até que um dia a dona se cansou da organização do ambiente e resolveu mover as coisas de lugar. E não é que o vaso de planta sem flores foi esquecido do lado de fora da janela? Os vasos que sempre estiveram lado a lado foram separados pela primeira vez.

Demorou um tempo até a dona se dar conta que o pobrezinho havia ficado do lado de fora. Afinal o vaso florido, esplêndido em sua magnitude, lhe ocupava bastante a atenção.

Mas ela se deu conta. E seu desespero foi proporcional a sua surpresa. Lá estava ele. O vaso que nunca dava flores… prestes a florescer encantadoramente. Lindo. Completo. Iluminado.

Iluminado.

Até então o vaso havia passado a vida inteira sob a sombra do outro. Foi só receber luz que serviu ao seu propósito lindamente.

O silêncio


O silêncio nunca foi incômodo para ela. Pelo contrário, era seu melhor amigo.

O mundo já parecia barulhento de mais. O silêncio era o único lugar em que podia se encontrar consigo mesma.

Mas aprendeu que, para a maioria das pessoas, se relacionar significava ruído, explosão, barulho. E assim foi se habituando aos poucos.

Ensaiava assuntos bobos para falar caso aparecesse o silêncio. Nem todos lidavam bem com o seu amigo íntimo. Aprendeu a aceitar a intromissão sonora do mundo em seu universo particular, embora na maioria das vezes buscasse refúgio em si própria. E assim foi indo. Entendendo que o mundo funcionava assim.

Até que um dia conheceu ele. Mais tagarelo do que todos que já havia conhecido. Ele tinha opinião sobre tudo. Se virava bem com qualquer pessoa. Em qualquer situação. Mesmo sem falar a mesma língua.

Como pode ser possível?

O choque de mundos foi inevitável. Eram versões extremas um do outro. No início, sempre havia desentendimentos. Ela não lidava bem com aquele turbilhão de palavras. Ele ficava inseguro com o seu silêncio.

Até que chegou um dia. Naquele dia os dois ficaram horas conversando. Falaram sobre a infância. Sonhos. Medos. Contaram coisas que ninguém mais teria coragem de dizer.

E ela entendeu que o barulho podia ser música. Entendimento. Paz.

Também vieram dias em que nada tinham para dizer. E o silêncio dela finalmente encontrou um parceiro. Alguém para dividir os momentos em que o mundo parecia intruso e inoportuno.

Aquela música


Já fazia muito tempo que não conversavam. Ou melhor, não como fazem verdadeiros amigos. Falavam, é claro. Pelo telefone… redes sociais.

Mas não o bastante. Nada profundo como costumavam fazer com facilidade.

Antes as horas passavam e os assuntos iam fluindo com naturalidade. Para quem estava de fora era difícil entender. Mas eles se entendiam. Sem pretensões. Sem intencionalidades alternativas.

Apenas amizade. Duas almas ansiosas que nada sabiam do futuro e encontravam algum consolo na companhia do outro.

E por isso ela estava ansiosa.

Ansiosa. Que novidade! (Pensou de má vontade enquanto ajeitava o sorriso torto)

A verdade é que incomodava pensar que estava se arrumando para reencontra-lo. – Não se arrumando para um encontro amoroso, veja bem. Não havia esta intenção por debaixo dos panos. – Era ansiedade para saber se ele ainda a admirava como antigamente. Se a conversa fluiria ao natural. Se ainda seriam as mesmas almas inquietas dividindo sonhos e medos.

Que bobagem. 

E o sorriso torto se fixou no rosto. E lá foi ela.

No início o encontro foi cheio de dedos. Quase como se não soubessem como agir. Mas eles foram se soltando aos poucos.

Mas algo incomodava dentro do peito. Era como se faltasse alguma coisa.

Instintivamente (ou nem tanto) ela fez o gancho com o passado na tentativa de recuperar o que parecia ter se perdido.

Ela puxou o celular do bolso e colocou a música deles. Não era uma música romântica, era uma música que falava sobre poder contar com o outro. Sobre estar disponível de verdade para alguém, apesar dos tumultos da vida.

Ele ouviu a música com um sorriso no rosto. Mas o caso é que ele não lembrava ser a música deles. Nem o contexto em que eles a escutavam. Nem o que queria dizer aquela letra. Nem nada.

O esquecimento dele foi a lembrança mais esmagadora para ela. De repente ela se deu conta.

Agora já somos almas estranhas um para o outro.

Aquela música já não significava mais nada para eles. Para ela, resumia uma perda irrecuperável.

Universo


Cada pessoa é um universo.

Com esse pensamento ele abriu os olhos. Já havia desistido de dormir.

Pulou da cama e se vestiu. Precisava ver gente.

A escolha foi a mesma de sempre: seu parque preferido. Lugares públicos repletos de pessoas traziam a sensação de companhia. Normalidade.

Ele sentou no banco de costume e ficou observando os passantes.

Algumas pessoas se tornaram conhecidas ao longo dos passeios. Reparou que alguns casais se formaram e outros romperam. Era comum ver grupos de jovens que se reuniam semanalmente para fazer as mesmas coisas.

E tinha ela.

Ela. Apenas ela.

Ela sempre sentava no mesmo lugar, próxima da estátua.

Com receio de ser flagrado olhando para ela, ele inventava motivos para olhar em sua direção. Mas não havia perigo. Ela estava sempre olhando para cima. O céu. Os prédios ao redor. A estátua. Sim, a estátua parecia intriga-la.

Semana após semana ele se preparava para aquele encontro. E ela não tinha ideia.

Não era a beleza dela que chamava sua atenção. Era bonita, sem dúvida. Mas o que mais lhe atraía nela era sua familiaridade em ficar sozinha.

Alguém que sabe ficar sozinho é sempre boa companhia.

E por isso ele tinha medo. Não queria interromper o encontro que ela tinha consigo mesma. Não queria estragar aquela experiência alheia aos outros. Queria manter o mundo dela intacto.

Mas também queria fazer parte daquele universo.

Por que ela sempre vem sozinha? De onde vem tanta confiança? E por que diabos olha tanto para essa estátua?

E assim ele passava o dia no parque. Alheio a tudo, exceto ela.

A cada semana o mesmo encontro silencioso. Dois universos inteiros que orbitavam o mesmo espaço sem interagir.

Cada pessoa é um universo.

Os palcos da vida


Ela sempre teve dificuldade em interpretar papéis na vida real.

Assumir personagens que não lhe cabiam causava uma angústia imensa.

E era justamente isso que ela observava acontecer com as pessoas a sua volta. Já não podia conversar sem que o outro desempenhasse um papel. Antes de terminar o que estava dizendo, era comum ouvir a outra parte do falso diálogo.

Ali estava abrindo o coração e o outro… bem, estava preocupado com sua próxima fala.

E assim foi desistindo. Abrir-se para o mundo tornou-se uma peça para plateias pequenas.

Cada vez mais escolhia o improviso aos grandes monólogos. A roupa neutra aos grandes figurinos.

Assistir a outras peças? Somente as de maravilhosos atores. Verossímeis. Singelos. Grandes em sua honestidade.

Os grandes grupos teatrais da vida reduziram-se a companhia de poucos. O menos tornou-se mais.

Num estilo cada vez mais realista, o desconforto com os diversos palcos enfrentados no dia a dia ficou cada vez mais evidente.

E assim ela foi reduzindo. Reduzindo os roteiros. Os atores. A plateia e os holofotes.

A crítica talvez tenha aumentado. Não sabe dizer. Já não lia o que escreviam sobre si.